Retaliação da UE a Trump: pacote de 93 bi de euros mira setores estratégicos
UE prepara retaliação cirúrgica de 93 bi contra tarifas de Trump

A tensão comercial entre os Estados Unidos e a União Europeia atingiu um novo patamar, com o bloco europeu preparando uma resposta econômica considerada mais cirúrgica e direcionada do que as medidas anunciadas pelo presidente americano, Donald Trump. Analistas ouvidos por VEJA nesta segunda-feira, 19 de janeiro de 2026, avaliam que a retaliação europeia, que pode chegar a 93 bilhões de euros, foi desenhada para causar impacto máximo em setores específicos dos EUA, enquanto tenta minimizar danos ao mercado interno europeu.

O Estopim: A Disputa pela Groenlândia

A crise teve início com declarações do presidente Trump reafirmando o interesse dos Estados Unidos na anexação da Groenlândia, território dinamarquês rico em terras raras. Em suas redes sociais, Trump afirmou que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) pediu à Dinamarca que contivesse uma suposta ameaça russa na região, e que "agora chegou a hora, e isso será feito!".

Como resposta às ameaças, vários países europeus, incluindo Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia, enviaram tropas para a ilha no Atlântico Norte. Trump retaliou anunciando tarifas de 10% sobre esses oito países, com previsão de aumento para 25% a partir de 1º de junho, caso se oponham à anexação.

A Resposta Cirúrgica da Europa

Os ministros das Finanças da França e da Alemanha anunciaram que a UE buscará um consenso sobre um pacote de retaliação. A proposta, que será discutida em uma reunião em Bruxelas na próxima quinta-feira, prevê a imposição de tarifas sobre 93 bilhões de euros (cerca de US$ 107,7 bilhões) em importações vindas dos Estados Unidos.

Segundo especialistas, o pacote europeu foi estruturado para ser seletivo. "Os EUA têm um pacote mais amplo, enquanto a UE ameaça um ataque econômico mais cirúrgico para atingir a ferida sem prejudicar tanto o mercado doméstico", explica Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil.

Os setores americanos que seriam mais impactados pela medida europeia incluem:

  • Petróleo e derivados
  • Automóveis e autopeças
  • Agronegócio
  • Vestuário e têxteis
  • Aeronáutica
  • Máquinas e equipamentos industriais
  • Bebidas alcoólicas

Impactos e Perdas para Ambos os Lados

A conselheira do Corecon-SP, Marisa Rossignoli, é categórica ao afirmar que ambas as medidas são agressivas e que não vê ganhadores neste conflito. "De um modo geral, a tarifa aplicada pelos EUA é mais agressiva, uma vez que pode chegar a 25%", complementa Marcos Praça.

As novas tarifas impostas por Trump podem custar cerca de US$ 30 bilhões por ano à economia europeia, valor calculado com base em dados históricos de exportação. Do lado europeu, os setores que mais sofreriam com as tarifas americanas são o automotivo, o farmacêutico e o de artigos de luxo, principais itens de exportação do bloco para os Estados Unidos.

O tom das autoridades europeias reflete a exasperação com a postura americana. "Nós, europeus, precisamos deixar claro: o limite foi atingido", declarou o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil. "Nossa mão está estendida, mas não estamos dispostos a ser chantageados", acrescentou.

A retaliação europeia, se aprovada, pode entrar em vigor em 6 de fevereiro, após um período de suspensão de seis meses. Enquanto isso, a relação transatlântica, já abalada pela disputa pela Groenlândia, enfrenta seu teste mais severo em anos, com analistas temendo uma escalada que prejudique a recuperação econômica global.