Gaúcha na Argentina relata incertezas após aprovação de reforma trabalhista
A reforma trabalhista proposta pelo presidente argentino Javier Milei e aprovada pela Câmara dos Deputados na semana passada está gerando incertezas e preocupações entre os brasileiros que vivem e trabalham no país vizinho. O texto, que agora retorna ao Senado para apreciação final, amplia a jornada máxima para 12 horas, altera o cálculo de indenização por demissão e impõe restrições significativas à licença médica.
Impacto direto na comunidade brasileira
Entre os afetados está a gaúcha Manuela Fonseca, natural de Porto Alegre, que reside na Argentina há mais de uma década. "Venho me questionando pela primeira vez, nos últimos dois anos. Nunca esteve no meu horizonte voltar. Por mais que houvesse crises, era algo mais estável. Agora, me faz repensar se não é um caminho voltar para o Brasil", afirma a assistente social formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Manuela mora em Mar del Plata, a aproximadamente 400 quilômetros de Buenos Aires, onde leciona na Universidade Nacional de Mar del Plata. Ela destaca que não está sozinha em suas preocupações: "Não só eu como brasileira penso isso, mas muitos argentinos estão tomando essa decisão de migrar para o Brasil".
Crise econômica intensificada
A percepção de crise se intensificou drasticamente nos últimos anos. "Estou há 10 anos na Argentina e há 10 anos escuto que o país está em crise. Mas, realmente, é a primeira vez que a crise que a gente sente, como trabalhador, nos últimos dois anos, é muito mais do que em outros anos", relata Manuela.
Ela detalha os impactos concretos no cotidiano:
- Queda acentuada no poder de compra
- Preços dos alimentos em alta constante
- Despesas como aluguel, luz, água, internet e telefone que dobraram
- Salários que não acompanharam a inflação
Preocupação dupla: trabalhadora e pesquisadora
Como trabalhadora imigrante, Manuela teme os impactos diretos da reforma trabalhista em sua própria situação profissional. Como assistente social e pesquisadora, ela observa com preocupação o risco de aumento da vulnerabilidade social que as mudanças podem provocar.
"Venho acompanhando como trabalhadora, mas também como alguém que se importa com as consequências dessa reforma. A gente trabalha com impactos do mundo do trabalho: emprego, desemprego, precarização, direitos. Isso afeta bairros e territórios. Me preocupa como trabalhadora, mas também como pesquisadora", explica.
Sinais de declínio econômico já visíveis
Mesmo antes da reforma trabalhista entrar em vigor, Manuela relata sinais preocupantes de declínio econômico na Argentina:
- Moradores locais passaram a adotar práticas financeiras antes incomuns, como a compra de alimentos no cartão de crédito
- Profissionais como motoristas de aplicativo precisam realizar jornadas exaustivas em múltiplos veículos para sobreviver ao final do mês
- Aumento generalizado da precarização do trabalho
Alerta para brasileiros que pensam em migrar
Diante das incertezas, Manuela emite um alerta direto para brasileiros que consideram se mudar para a Argentina: "Se vier para cá, tem que vir com um trabalho muito bom. Vir para estudar, só se a pessoa tem condições econômicas para se manter. Não é um lugar que hoje garante possibilidade de melhorar no futuro".
Ela é enfática: "'Ah, vou vir para a Argentina para melhorar de vida'. Até pode acontecer, mas não é o contexto mais favorável para se mudar para a Argentina hoje. Não recomendo".
A situação permanece em aberto enquanto o projeto de reforma trabalhista segue para o Senado argentino, deixando brasileiros como Manuela Fonseca em um limbo de decisões difíceis sobre seu futuro no país que há uma década chamam de casa.



