Em meio ao avanço das discussões sobre mudanças climáticas e redução de emissões, o destino do lixo orgânico ainda representa um desafio econômico e ambiental no Brasil. Na prática, continua sendo mais barato enviar resíduos orgânicos para aterros sanitários do que investir em alternativas como compostagem ou biodigestão. Esse cenário ajuda a explicar por que grande parte dos resíduos segue sendo descartada em aterros, onde a decomposição inadequada gera metano, um dos gases de efeito estufa mais nocivos para o aquecimento global.
Segundo dados do Global Methane Status Report 2025, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, o metano é responsável por cerca de 30% do aquecimento global, enquanto o setor de resíduos contribui com aproximadamente 20% das emissões globais. Além do impacto ambiental, municípios e empresas continuam lidando com custos elevados de coleta, transporte e destinação final do lixo. Apesar disso, soluções consideradas tecnicamente viáveis ainda enfrentam dificuldades para ganhar escala no país.
Entrave econômico supera o tecnológico
Segundo Ian McKee, CEO da Carrot, o principal entrave não é tecnológico, mas econômico. “Hoje, o aterro ainda é a opção mais barata em muitos casos. Enquanto não existir um incentivo econômico claro para reaproveitar resíduos orgânicos, a tendência é que o modelo atual continue predominando”, afirma. A startup brasileira atua justamente nesse ponto ao conectar economia circular e mercado de carbono.
Modelo de negócio inovador
A empresa desenvolveu um modelo que transforma o tratamento correto de resíduos orgânicos em créditos ambientais, criando uma fonte adicional de receita para operações de compostagem e biodigestão. Na prática, quando o resíduo deixa de ir para aterros e passa a ser tratado de forma adequada, evita-se a emissão de metano na atmosfera. Essa redução pode ser convertida em créditos ambientais negociáveis, ajudando a financiar a operação e aumentar a viabilidade econômica do processo.
Atualmente, a Carrot opera com quatro parceiros nos estados do Paraná, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, com capacidade de processamento de cerca de 27 mil toneladas mensais de resíduos orgânicos. Outras operações ainda estão em fase de homologação. Para McKee, o avanço desse mercado depende da combinação entre incentivo econômico, regulamentação e mudança de percepção sobre o lixo orgânico. “O resíduo orgânico ainda é visto apenas como custo, quando poderia ser tratado como ativo ambiental e energético”, destaca.
O movimento acontece em um momento em que o mercado de carbono e as soluções ligadas à economia circular começam a ganhar espaço no Brasil, especialmente diante da pressão global por redução de emissões e transição para modelos mais sustentáveis.



