Guerra no Oriente Médio pode reduzir preços de alimentos no Brasil, diz economista do Morgan Stanley
Guerra pode reduzir preços de alimentos no Brasil, diz economista

Conflito geopolítico pode ter efeito desinflacionário temporário sobre alimentos no Brasil

O atual cenário de tensões geopolíticas no Oriente Médio pode gerar um alívio temporário nos preços dos alimentos no Brasil, segundo análise da economista-chefe do Morgan Stanley para o país, Ana Madeira. Em entrevista exclusiva à Broadcast, a especialista destacou que as dificuldades no escoamento de exportações de carnes para aquela região tendem a aumentar a oferta disponível no mercado doméstico brasileiro.

Impacto diferenciado no curto e médio prazo

"O Brasil em específico é um pouco diferente dos outros países", afirmou Madeira, explicando que aproximadamente 30% das exportações brasileiras de frango e cerca de 15% de outras proteínas animais têm como destino o Oriente Médio e passam pelo estratégico Estreito de Ormuz.

Considerando as limitações de armazenamento no país e o alto endividamento dos produtores rurais, essa produção destinada à exportação acabará sendo direcionada para o mercado interno. Como os alimentos representam mais de 20% da cesta do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), esse movimento pode exercer pressão desinflacionária no curto prazo.

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No entanto, a economista ressalta que "no líquido, continua sendo mais inflação para cima do que para baixo", já que no médio prazo o principal impacto virá do aumento dos preços do petróleo, que afeta custos de produção e distribuição em uma economia onde 60% dos produtos são transportados por caminhões movidos a diesel.

Projeções para a taxa Selic e inflação

Ana Madeira revisou as projeções do Morgan Stanley para a taxa básica de juros brasileira. A expectativa agora é de que o Banco Central acelere o ritmo dos cortes para 0,50 ponto percentual a partir de junho, levando a Selic a 12% ao final de 2026 - abaixo do consenso de mercado que prevê 12,25%.

Para a inflação, a previsão é de IPCA em 3,9% no final deste ano, enquanto o Banco Central mantém sua meta de 3%. A economista destacou que "muito da alta das expectativas para os próximos anos inclui um pouco de risco fiscal", referindo-se às incertezas eleitorais e aos planos do próximo governo.

Cenário cambial e petróleo

O Morgan Stanley projeta que o câmbio deve se manter em patamares que não comprometam o ciclo de cortes de juros, com o real continuando atrativo para investidores internacionais devido ao diferencial de juros. Para o petróleo, a premissa utilizada nas projeções é de US$ 70 por barril de Brent no final do ano, ante US$ 65 anteriormente.

Independência do Banco Central

Sobre as duas vagas abertas no Conselho de Política Monetária (Copom), Madeira afirmou que o mercado tem menos receio hoje do que há um ano quanto à indicação de nomes pelo governo. "Temos visto nomes indicados pelo governo fazendo uma política monetária muito independente e focada na convergência da inflação", destacou a economista.

Posicionamento do Brasil entre emergentes

Segundo a análise do Morgan Stanley, o Brasil está relativamente bem posicionado entre as economias emergentes devido a:

  • Colchão de juros que oferece margem de manobra
  • Percepção de baixa volatilidade até o segundo semestre
  • Desaceleração econômica ordenada e leve
  • Ausência de ruídos fiscais significativos
  • Condição de exportador líquido de petróleo

A economista finalizou destacando que, apesar dos desafios, o país tem condições de navegar pelo complexo cenário internacional com relativa estabilidade nos próximos meses.

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