Um projeto da Universidade Estadual Paulista (Unesp) trabalha há uma década para criar um geoparque em nove cidades do interior de São Paulo, região onde foram descobertos fósseis do Mesosaurus, um réptil aquático que habitou a Terra há aproximadamente 280 milhões de anos, quando a área era fundo do mar. A iniciativa será submetida ao selo de Geoparque Global pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Caso aprovado, será o primeiro geoparque do estado e o sétimo do Brasil.
O que é um geoparque?
Um geoparque é um território que apresenta uma ligação intrínseca entre seus elementos culturais e geológicos, com relevância científica. No caso do Geoparque Corumbataí, a área abrange fósseis, cachoeiras, museus, morros, trilhas, rochas e florestas localizadas na Bacia do Rio Corumbataí.
Dez anos de trabalho
O Geoparque Corumbataí é desenvolvido desde 2016 e reúne os municípios de Analândia, Charqueada, Cordeirópolis, Corumbataí, Ipeúna, Itirapina, Piracicaba, Rio Claro e Santa Gertrudes. Um fenômeno raro na região é o encontro de dois cursos d'água que fluem um de frente para o outro: os rios Passa-Cinco e Cabeça, afluentes do Corumbataí, que se encontram na zona rural de Ipeúna.
O geólogo Mateus Lisboa explicou que os rios se encontram em formato de Y, mas com um ângulo de 180 graus, devido a uma estrutura geológica associada a uma falha. Essa confluência é única e resulta de processos geológicos específicos.
Único no estado de São Paulo
O geólogo e professor da Unesp, Alexandre Perinotto, destacou que o Brasil possui apenas seis geoparques mundiais. O de Corumbataí é o único no estado de São Paulo. "Se formos nós os enviados para a Unesco, a partir desse momento passamos a ser geoparque aspirante", afirmou. A próxima etapa é transformar a área em um geoparque mundial, com previsão de apresentação oficial à Unesco em 2027. Com a conquista, a região ganharia visibilidade internacional, impulsionando o turismo e destacando as cidades envolvidas.
Visita de especialistas
Na quarta-feira (29), pesquisadores, incluindo Paula Cusinato, presidente da Associação Geoparque de Uberaba (MG) — reconhecido há dois anos pela Unesco —, visitaram pontos de interesse do projeto. Ela mencionou as transformações em Minas Gerais após o reconhecimento: "O principal é a comunidade que começou a se apropriar do território, criando um sentimento de pertencimento. Ganhamos várias instituições parceiras que passaram a apoiar e incentivar".
Rhandrus Nicolai de Almeida Kantovitz, coordenador de Relações Internacionais do geoparque Unzen, no Japão, e natural de Piracicaba, também participou da visita. "O geoparque começa com a geologia, dentro da academia, mas ganha vida nas comunidades. É importante que as pessoas venham, olhem, entendam e aprendam sobre a região", disse.
Benefícios para a região
Segundo os pesquisadores, o projeto não se trata apenas de preservação, mas também de impulsionar o desenvolvimento regional. O turismo seria um dos principais setores beneficiados. "Quando você mostra a beleza e conta um pouco da história, agrega muito para quem visita nossa região", afirmou Money Wilian Fernandes, guia da Serra do Itaqueri.
Selo da Unesco
Para que o projeto seja formalmente submetido à Unesco e receba o selo de Geoparque Global, é necessário cumprir requisitos como apresentação da base científica, engajamento político e social entre a comunidade e o poder público, além de possuir patrimônios internacionais. No caso do Geoparque Corumbataí, o principal patrimônio são os fósseis do Mesosaurus, encontrados tanto na região de Rio Claro quanto na bacia do Karoo, na África do Sul. Como a anatomia do animal não permitiria a travessia do Oceano Atlântico, sua presença em ambos os continentes é uma evidência biológica de que Brasil e África já estiveram unidos no supercontinente Gondwana.
Atualmente, existem 229 geoparques em 50 países reconhecidos pela Unesco. Seis estão no Brasil, sendo o pioneiro no Ceará, reconhecido por seu patrimônio fossilífero.



