Malabarista ganha 'dia de beleza' de cabeleireiro em Itapetininga
Malabarista ganha dia de beleza de cabeleireiro

Uma mulher que sustenta a família fazendo malabares nos semáforos de Itapetininga, interior de São Paulo, viveu uma experiência transformadora ao ser convidada para um 'dia de beleza' promovido por um cabeleireiro local. Bruna dos Anjos Gomes, de 40 anos, é conhecida e querida pelos moradores, e foi justamente esse carinho que motivou o profissional Alef Faria a procurá-la, após receber diversas mensagens sugerindo que ela participasse do projeto social que ele mantém.

Como surgiu o convite

Alef Faria, que já realizava transformações gratuitas para mulheres em situação de vulnerabilidade, conta que muitas pessoas o procuraram para indicar Bruna. 'Muita gente conhece meu projeto de transformação, então começaram a me mandar mensagem falando 'faz da Bruna, chama ela'. Depois disso, descobri onde ela ficava e a encontrei numa esquina. Perguntei se ela queria participar. Na hora, ela disse: 'Mas você tem certeza? Porque já me prometeram isso e não cumpriram'', relata o cabeleireiro.

Alef pediu um voto de confiança e marcou a transformação para o dia 4 de maio, em seu salão no centro da cidade. Antes de começar, ele perguntou a Bruna o que ela gostaria de mudar no visual. 'Sempre pergunto o que elas querem fazer. Não imponho nada. Ela disse que queria pintar o cabelo em um tom marsala e fazer um corte mais curto, para facilitar os cuidados no dia a dia', explica.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Uma experiência de autoconhecimento

Bruna, que é professora e escritora, atualmente mora com os pais e, sem emprego fixo, recorre aos semáforos para fazer malabarismo e pedir contribuições dos motoristas. Ao ser abordada por Alef, ela imaginou que fosse mentira. 'Fiquei com medo de que não fosse verdade, que fosse uma promessa vazia. Mas ele cumpriu. E foi incrível', celebra.

Ela revela que os problemas pessoais a fizeram abandonar os cuidados com a aparência, a ponto de evitar se olhar no espelho. 'Nem me lembro da última vez que vivi algo assim, de realmente cuidar de mim. Eu estava muito mal comigo mesma e só percebi depois dessa experiência. Às vezes pensava em usar uma roupa que me favorecia, mas não era prioridade. Na maior parte do tempo, não cuidava de nada relacionado a mim. Não estava me olhando no espelho', conta.

Além da mudança no cabelo, Bruna fez as unhas, recebeu maquiagem e ganhou roupas, sapatos e acessórios doados por lojistas da cidade. Ela avalia que a transformação estética teve reflexos profundos. 'Foi uma experiência de autoconhecimento. Acho que eu subestimava essa questão da estética, não imaginava que pudesse tocar em partes mais profundas. Estou muito reflexiva, traçando planos. Estou me sentindo amada, enxergada, com esperança', comemora.

Trajetória de superação

Bruna nasceu na capital paulista e passou parte da infância na Bahia. Mudou-se para Itapetininga ainda criança, por causa do pai, natural da cidade. Ela relembra as dificuldades financeiras da família, mas destaca o incentivo dos pais aos estudos. 'Falta de emprego, não tínhamos onde morar, ficamos de favor. Meus pais são pessoas simples, mas me criaram com dignidade. Meu pai trabalhou em supermercado, minha mãe era empregada doméstica. Ela me ensinava a ler, apesar de terem apenas o fundamental. Sempre me incentivaram a estudar', diz.

Mais tarde, Bruna estudou no Centro Específico de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério, em Itapetininga, com bolsa de estudos. Chegou a cursar Serviço Social em Sorocaba com bolsa integral do Enem, mas não concluiu o bacharelado. Usou o diploma de licenciatura para trabalhar como professora, chegando a ser concursada em Caraguatatuba. No entanto, problemas de saúde mental a fizeram deixar o cargo. 'Sempre tive o sonho de fazer algo relacionado às artes e estava muito engessada em algo que não conseguia mais escrever', lamenta.

Viver da escrita

Em Itapetininga há cinco anos, Bruna conseguiu publicar um livro por meio de um edital cultural. A obra 'Fruto Rubro Agonizante' está disponível para venda. 'Foi a primeira vez que publiquei um livro. Continuo tentando, tenho outro livro que quero publicar. Gostaria muito de viver da arte. Escrevo poemas desde pequena. Mas a vida é uma luta, um corre', finaliza.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Projeto social do cabeleireiro

Alef Faria mantém o projeto de transformação visual há cerca de quatro anos, já tendo atendido pelo menos 20 mulheres de Itapetininga, a maioria catadoras de recicláveis ou trabalhadoras da limpeza urbana. Ele conta que a iniciativa surgiu da vontade de ajudar ao próximo, algo que já fazia em ações voluntárias de igrejas. 'Sou cristão e acredito que tudo que você planta, colhe. Sempre gostei de ações sociais, participava com doação de marmitas para moradores de rua. Mas pensei em fazer algo dentro do meu trabalho, com cabelo, que para mim é uma terapia', relata.

A primeira mulher atendida foi Daiane, que Alef via passar em frente ao salão com três crianças e um carrinho de recicláveis. 'Parei para perguntar se ela queria fazer o cabelo. Na época, eu só fazia corte e maquiagem, mas elas ficavam muito emocionadas. Divulguei a primeira transformação e um monte de gente começou a levar doações ao salão. Continuei fazendo o trabalho', comemora o profissional, que já foi homenageado na França por seu trabalho social.