Lobby do B16: Especialista alerta que aumento do biodiesel pode pressionar preço dos alimentos
Com a disparada do preço do petróleo e dos combustíveis, impulsionada pela Guerra no Golfo, a Petrobras está vendendo seu diesel para distribuidoras com valores aproximadamente 30% abaixo da referência internacional. Esta defasagem representa a maior desde 2022, conforme apontou relatório do Goldman Sachs enviado aos clientes na quinta-feira.
Nesta sexta-feira, o contrato do petróleo Brent para entrega em maio superou a marca de US$ 91, registrando alta diária de 7% e acumulando impressionantes 26% em uma única semana de conflito. Paralelamente, os óleos combustíveis destinados ao aquecimento dispararam 37% no mesmo período.
O diesel no Brasil e a composição peculiar
O diesel se consolida como o derivado de petróleo mais consumido no Brasil, com volumes que excedem a capacidade nacional de fracionamento. Em 2025, representou 50,8% do faturamento com derivados de petróleo, apresentando crescimento de 1,3%.
Para otimizar o processo e evitar sobras de gasolina e outros derivados, a Petrobras desenvolveu, nos anos 70, uma mistura especial para o diesel brasileiro. Esta composição inclui o próprio diesel, uma fração mais leve do óleo combustível – que se tornou excedente com a maior adoção de caldeiras elétricas e a gás natural – e a adição de gasolina para compensar o baixo teor calorífico. Esta fórmula explica por que o diesel brasileiro pega fogo, mas não explode como a gasolina e o álcool.
Mais recentemente, neste século, houve a incorporação de óleos vegetais, principalmente de soja, e de gordura animal ao diesel. A mistura, que era de 10%, passou para 14% em 2024 e estava prevista para atingir 15% em março de 2025. No entanto, por precaução do governo para não inflacionar o preço do óleo de soja para o consumidor, a medida foi arquivada.
A pressão pelo B16 e os argumentos do setor
A escalada dos preços devido à guerra motivou o presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (APROBIO), Jerônimo Goergen, a iniciar um lobby para antecipar a mistura de 16% de biodiesel no combustível, proposta para 15 de março.
A APROBIO destaca, com base em dados da ANP, que as importações representaram, em média, 26% da oferta interna total de diesel em 2024, chegando a 28% em outubro daquele ano. Esta dependência expõe o país a riscos de preço, câmbio e abastecimento. Por isso, a entidade defende "avançar na mistura obrigatória de biodiesel".
A associação argumenta que o Brasil deve cumprir o cronograma de evolução da mistura e progredir para o B16, como medida de proteção ao consumidor e de redução da dependência externa. Em agenda oficial com o Ministério de Minas e Energia, a APROBIO listou as vantagens do aumento, garantindo que cada ponto percentual adicional de biodiesel na mistura significa, na prática:
- Menor necessidade de importação de diesel fóssil
- Menor exposição à volatilidade internacional e ao dólar
- Mais estabilidade para logística e preços internos
- Maior utilização da capacidade instalada da indústria nacional, gerando renda e empregos no país
Críticas do ex-presidente da Petrobras
Para o ex-presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, "a escalada de tensões no Golfo e a volatilidade recente no mercado de petróleo reacenderam um debate importante no Brasil: como reduzir a exposição do país a choques internacionais no preço do diesel".
Prates, especialista em petróleo e energias renováveis, reconhece que a ideia de ampliar a mistura de biodiesel "à primeira vista, parece razoável", pois o Brasil ainda importa parcela relevante do diesel que consome. Substituir parte desse volume por biodiesel produzido domesticamente poderia, em teoria, aumentar a segurança energética.
No entanto, ele ressalta que "a questão não é tão simples". O biodiesel brasileiro geralmente tem custo superior ao do diesel mineral, principalmente porque sua principal matéria-prima é o óleo de soja – um produto com preço elevado e fortemente influenciado pelo mercado internacional de alimentos. "Esse detalhe muda completamente a natureza do debate", afirma.
Segundo Prates, mais de 65% do biodiesel produzido no Brasil utiliza óleo de soja. Ao aumentar a mistura obrigatória, o governo cria uma demanda garantida por lei para essa matéria-prima, estabelecendo um mercado cativo. "Assim, a política de biodiesel não é apenas uma política energética. É também uma política agrícola e industrial. E isso tem consequências", alerta.
O ex-senador do Rio Grande do Norte lembra que o óleo de soja é um dos principais produtos alimentares consumidos no país e amplamente utilizado na indústria de alimentos. "Quando sua demanda cresce artificialmente por meio de mandatos de mistura, seu preço tende a subir. Nesse caso, uma política destinada a reduzir a importação de diesel pode acabar pressionando o custo dos alimentos".
O desafio da logística
Prates também adverte para "outro fator raramente discutido: a logística". A produção de biodiesel está concentrada principalmente nas regiões Centro-Oeste e Sul, onde se localiza a cadeia produtiva da soja. Mesmo regiões que não produzem biodiesel precisam recebê-lo para cumprir a mistura obrigatória nacional.
O resultado é um sistema em que o biodiesel percorre milhares de quilômetros em caminhões movidos a diesel apenas para garantir a mistura legal. "Do ponto de vista energético e econômico, esse arranjo nem sempre é eficiente", pondera.
"Isso significa que o biodiesel não faz sentido? De forma alguma", sustenta Prates. "O debate precisa ser mais amplo e medir as consequências na cadeia alimentar. E pode ser mais complicado para a Petrobras conciliar custos".



