Guerra no Oriente Médio pressiona custos agrícolas e ameaça preços dos alimentos no Brasil
O conflito armado entre Estados Unidos, Israel e Irã, que já atinge seu quinto dia e se espalha por todo o Oriente Médio, apresenta uma ameaça concreta ao bolso dos consumidores brasileiros. Economistas alertam que o aumento nos custos da produção agrícola, observado em menos de uma semana de hostilidades, pode se traduzir em alimentos mais caros nas prateleiras nos próximos meses. A situação é particularmente sensível devido à dependência brasileira de insumos importados da região conflituosa.
Três fatores-chave que explicam a pressão nos preços
Fertilizantes em alta: A agricultura nacional é profundamente dependente de adubos importados, com uma parcela significativa da matéria-prima originária do Oriente Médio. As cotações desses insumos já registraram aumentos substanciais nesta semana, impactando diretamente o custo de produção.
Crise no transporte marítimo: O fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, uma das principais artérias comerciais globais, forçou o redirecionamento de navios que transportam produtos brasileiros. Essa mudança de rota eleva consideravelmente os custos de frete, encarecendo tanto as importações quanto as exportações.
Diesel mais caro: A região é um fornecedor crucial de petróleo para o mundo. A instabilidade tende a pressionar os preços dos combustíveis, o que se reflete no custo de operação de máquinas agrícolas e no transporte de grãos e alimentos até os centros de consumo.
Impacto imediato no produtor e efeito retardado ao consumidor
O aumento dos custos chega em um momento já delicado para o produtor rural, que enfrenta juros elevados e dificuldades de crédito. "A questão é o quanto o conflito vai impactar na produção e o quanto essa guerra vai perdurar. Provavelmente não vai ser uma coisa rápida de ser resolvida", afirma Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global. Para ele, o impacto ao produtor é imediato, mas a transferência para os preços ao consumidor final pode levar alguns meses.
Felippe Serigati, pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Agro, pondera que ainda é cedo para dimensionar o efeito total. Ele aponta que fatores como a desvalorização do dólar e condições climáticas favoráveis podem ajudar a amortecer os aumentos. Contudo, a centralidade do Oriente Médio no mercado global de fertilizantes é inegável.
Papel estratégico do Oriente Médio no mercado de fertilizantes
Embora individualmente países como Rússia, China e Canadá liderem as vendas para o Brasil, o Oriente Médio, como região, responde por 40% das exportações mundiais de ureia e 28% das de amônia. "O impacto nos preços foi instantâneo e severo, com altas de cerca de 10% a 12% em apenas um dia", destaca Tomás Rigoletto Pernías, analista da StoneX Brasil. A incerteza fez vendedores suspenderem ofertas e produtores reduzirem a produção, temendo problemas de logística.
Para o Brasil, o encarecimento deve afetar principalmente as safras plantadas a partir do segundo semestre, pois os fertilizantes para a atual já foram adquiridos. A busca por fornecedores alternativos, como o Canadá, é uma possibilidade, mas especialistas alertam que os preços globais devem permanecer elevados.
Efeitos em cascata no transporte e no diesel
O fechamento do Estreito de Ormuz não paralisa o comércio, mas impõe custos extras significativos: fretes mais caros, seguros elevados e aumento no preço do diesel. "Isso faz com que o preço, a cotação dessas commodities, aumente praticamente para todo mundo, independentemente de onde esteja", explica Serigati. O mercado internacional está totalmente interligado; uma interrupção na oferta, mesmo localizada, pressiona os preços globalmente devido à demanda constante.
O diesel mais caro impacta diretamente a operação de máquinas no campo e o transporte rodoviário da safra, como a da soja, que está em fase de escoamento. No entanto, a situação difere da crise provocada pela guerra na Ucrânia, pois atualmente o mercado de petróleo opera com excesso de oferta, o que pode oferecer alguma resistência aos aumentos.
Exportações brasileiras também sob risco
Além do impacto interno, as vendas externas do agronegócio brasileiro enfrentam obstáculos. Países do Oriente Médio podem ter dificuldades para receber cargas de frango, carne bovina e açúcar. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), confirma que embarques de frango já estão sendo redirecionados, com rotas mais longas e custosas.
Empresas de navegação implementaram uma "taxa de guerra" para cobrir seguros e custos extras de armazenamento refrigerado. A região é destino de cerca de 10% das exportações de carne do Brasil, e uma parcela significativa dos embarques para a Ásia passa pelo Oriente Médio, tornando a situação extremamente preocupante para os exportadores, que se veem impotentes diante de eventos geopolíticos de grande escala.
