Conflito no Oriente Médio pressiona preços globais e afeta commodities brasileiras
Guerra EUA-Israel-Irã impacta commodities e economia do Brasil

Guerra no Oriente Médio gera incertezas na economia global e afeta commodities

A guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã tem lançado uma nuvem de incerteza sobre os rumos da economia mundial. O bloqueio do Estreito de Ormuz pela Guarda Revolucionária iraniana e a redução na oferta de petróleo pelos países do Golfo Pérsico já levam analistas a projetarem uma inflação generalizada como uma das principais consequências do conflito.

Impacto direto no petróleo e fertilizantes

Além do petróleo, o choque econômico atinge em cheio a oferta global de fertilizantes, já que aproximadamente um terço desse insumo crucial para a agricultura passa pelo estratégico Estreito de Ormuz. O Irã, por si só, é um dos maiores exportadores mundiais de ureia, um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados por agricultores em todo o planeta.

O impacto dessa crise nos preços ainda é incerto, mas uma alta nas commodities já vem ocorrendo nas últimas semanas. O índice CRB, um dos principais termômetros de matérias-primas básicas como petróleo e alimentos, atingiu na última segunda-feira (09/03) sua maior cotação desde 2011. Especialistas apontam que essa tendência de alta deve se manter, pelo menos enquanto persistir o conflito na região.

O papel do Brasil nesse cenário turbulento

É nesse contexto que surgem questões sobre o papel do Brasil. O país não é apenas o maior produtor mundial de alimentos, mas também o sexto maior produtor de petróleo bruto e o décimo no ranking de exportadores desse combustível fóssil. Dessa forma, grande parte de sua balança comercial depende diretamente de produtos primários.

Foi justamente um incremento na cotação desses itens que gerou o que ficou conhecido como "boom das commodities", entre o início do século 21 e o começo da década de 2010. Esse período beneficiou significativamente a economia brasileira, contribuindo para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e consolidando o país como uma grande economia exportadora de matérias-primas.

Um novo boom das commodities?

O fechamento do Estreito de Ormuz impacta diretamente a oferta de produtos como petróleo, gás natural e fertilizantes. Esta é uma diferença fundamental em relação ao boom anterior das commodities, que foi basicamente fomentado pelas altas taxas de crescimento da economia chinesa.

Entre 2002 e 2011, a China registrou um crescimento do PIB acima de 9%, propulsionado principalmente pela rápida expansão industrial. Essa demanda por matérias-primas gerou uma oportunidade histórica para o Brasil. Foi durante esse período, em 2009, que a China se tornou o maior parceiro comercial brasileiro.

No entanto, desde então, a economia chinesa vem reduzindo suas taxas de crescimento. Neste ano, pela primeira vez desde 1991, o país asiático estabeleceu como meta um crescimento anual do PIB abaixo dos 5%. Para lá o Brasil envia 80% de sua soja - produto brasileiro mais vendido para o exterior, que correspondeu a 34,5% das exportações do país em 2025, totalizando US$ 34,5 bilhões na balança comercial do ano passado.

A China compra ainda 56% do minério de ferro produzido no Brasil e 45% do petróleo bruto nacional. Um bloqueio mais prolongado no Estreito de Ormuz, com o recrudescimento da guerra no Irã, deverá pressionar para uma alta das commodities agrícolas como efeito cascata a partir do encarecimento dos combustíveis e fertilizantes, aliada à incerteza que gera especulação nos mercados.

"Para a China, por exemplo, o fornecimento de grãos do Brasil deverá ficar no mesmo patamar. Só que, se houver alta dos preços, isso gera uma maior receita. Não é uma coisa muito significativa, mas pode acontecer", explica Francisco Américo Cassano, professor do curso de Relações Internacionais da Universidade Santa Cecília. "Não vejo como um novo boom, mas como um aumento da exportação", complementa o especialista.

Fertilizantes e o calendário agrícola global

Um fator adicional poderá ser causado pelo choque nos fertilizantes: os próximos meses serão cruciais para o início do plantio em países do Hemisfério Norte, o que também pode gerar uma redução na oferta por lá e o redirecionamento das compras para países como o Brasil, onde as safras ocorrem no segundo semestre.

Cassano, no entanto, acredita que as chances de isso ocorrer são menores. "Mesmo porque o Donald Trump não tem tanto interesse desse conflito se alastrar por tanto tempo, porque ele vai sofrer o mesmo problema de inflação dentro dos Estados Unidos", pondera o professor.

Cenários de curto e longo prazo para o Brasil

O fato de estar fora da região de conflito realmente pode fazer com que o Brasil se beneficie do cenário atual, analisa Jorge Arbache, professor de economia da Universidade de Brasília (UnB). "O país se torna uma opção de investimento de uma forma geral, exatamente porque está longe das tensões. Tem uma política de se manter distanciado, está longe do ponto de vista geográfico e político e tem várias oportunidades de negócios – na agricultura, na energia e diversos outros setores", aponta o economista.

Segundo ele, o contexto internacional tende a fazer com que o país siga atraindo investimento direto estrangeiro, fluxo que já vem ocorrendo nos últimos anos por causa do aumento das incertezas na geopolítica mundial. "É muito provável que os preços da energia e alimentos subam mesmo após o fim da guerra, por causa da mudança climática. Quando você coloca a geopolítica em cima, os efeitos são ainda maiores", diz Arbache. "Isso tende a ser benéfico no médio e longo prazo, mas de maneira condicionada, porque é um cenário de incertezas", ressalta o professor.

Desafios no curto prazo

Já no curto prazo, a situação é mais complicada. O aumento da percepção de risco nos mercados pode atingir o risco de crédito e o risco-país, impactando principalmente os países emergentes. A elevação do preço do petróleo e fertilizantes pode afetar a economia brasileira e chegar diretamente ao consumidor, com choques no valor do frete e dos alimentos, por exemplo.

Mas mesmo uma alta nas commodities, lembra Cassano, com o mercado externo pagando mais caro pelos alimentos, deve gerar mais inflação para o consumidor interno. "Os preços tendem a subir também porque o produtor está recebendo mais lá fora e isso impacta diretamente os preços internos, gerando mais inflação", afirma o professor da Universidade Santa Cecília.

Efeitos prolongados e investimentos internacionais

Além disso, os efeitos da guerra no Irã sobre incertezas e decisões de investimento vão continuar, mesmo se o conflito chegar ao fim nas próximas semanas. As retaliações do Irã em países vizinhos no Golfo Pérsico causaram estragos em plantas energéticas e reservatórios importantes para nações como Emirados Árabes, Catar e Arábia Saudita.

"Essas nações têm grandes fundos soberanos, que são investidores inclusive no Brasil – muito provavelmente, isso vai fazer com que eles reduzam esses aportes", pontua Arbache.

Segundo ele, no entanto, mesmo que o cenário ainda seja incerto quanto a previsões, o consumidor poderá voltar a ganhar no longo prazo, com um aumento da atratividade do Brasil que impulsionará a atividade econômica, gerando mais emprego. "Mas, no curto prazo, deve perder, como praticamente todo mundo. É uma guerra com impactos generalizados por causa da globalização. É uma guerra que mirou um alvo e está acertando em vários outros, com múltiplas complicações econômicas", finaliza o professor da UnB.