A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) emitiu um alerta significativo sobre a inflação de custos que deve atingir o agronegócio brasileiro em decorrência do conflito no Oriente Médio, que já completa dez dias após o ataque de Estados Unidos e Israel ao Irã. A análise técnica realizada pela entidade aponta para aumentos expressivos nos preços do diesel, impulsionados pela alta na cotação do petróleo, e dos fertilizantes nitrogenados, elementos cruciais para a produção agrícola nacional.
Impactos imediatos e projeções para a próxima safra
Bruno Lucchi, diretor técnico da CNA, destacou em entrevista ao Broadcast Agro que os preços já apresentaram elevações e o impacto em custo deve ser sentido de forma mais acentuada na próxima safra. "Os preços já subiram e o impacto em custo deve ser visto na próxima safra. A depender do prolongamento do conflito e de como vai afetar o setor, pode haver reflexo na intenção de plantio na safra 2026/27, que começa a ser semeada em setembro", afirmou Lucchi, ressaltando a incerteza que paira sobre o planejamento dos produtores.
Quatro impactos potenciais no mercado interno
Em nota técnica, a CNA elencou quatro efeitos principais que o conflito pode gerar no mercado brasileiro:
- Alta da ureia pressionada pelo incremento do gás natural.
- Encarecimento de frete, seguro e operação marítima devido ao risco no Estreito de Ormuz.
- Oferta global limitada por redução de embarques e atrasos logísticos.
- Volatilidade com oscilação de preços, contratos futuros e câmbio.
A entidade enfatiza que o Oriente Médio responde por 20% do comércio internacional de petróleo e gás natural, 30% dos fertilizantes comercializados globalmente e de 25% a 35% do comércio mundial de amônia e ureia. "A região é estratégica para energia, gás e ureia, e qualquer disrupção em Ormuz rapidamente pressiona os custos globais e o mercado brasileiro", destacou a CNA, citando uma disparada de 27% no preço do petróleo brent, com o barril atingindo US$ 84.
Diesel e fertilizantes no centro das preocupações
De acordo com dados da confederação, o conflito já impacta o preço do diesel, com relatos de produtores em Goiás registrando aumento de R$ 1 por litro, o que afeta operações mecanizadas tanto na colheita dos cultivos de verão quanto no plantio das lavouras de inverno. "A preocupação número um é com o diesel, com preços e normalidade de abastecimento que afetam operações mecânicas e o frete de transporte dos insumos e abusos já identificados", pontuou Lucchi.
Para a CNA, o setor de fertilizantes tem alta exposição aos efeitos do conflito, com 22 milhões de toneladas de ureia exportadas pelo bloco e 35% da ureia brasileira originária da região. "Fertilizantes é a cadeia mais sensível, pois combina risco geopolítico, pressão sobre gás natural, ureia, frete e seguro marítimo", considerou a confederação. O preço da ureia importada subiu 33% desde o início do conflito, entre 26 de fevereiro e 6 de março.
Conjuntura crítica do agronegócio amplia riscos
Lucchi enfatizou que a situação atual do agronegócio torna os impactos do conflito ainda mais temerosos. "O setor enfrenta uma situação crítica com problema de acesso a crédito, juros elevados, endividamento, margens achatadas, menor rentabilidade, preços sem perspectiva de reação e insumos sem arrefecimento. O conflito é um fator que vai onerar ainda mais o produtor", apontou, destacando a vulnerabilidade dos agricultores diante de pressões adicionais.
Exportações brasileiras e exposição por produto
Do lado das exportações, a CNA destacou que o Brasil comercializou US$ 2,920 bilhões em produtos do agronegócio para o Irã no último ano, posicionando o país como o 11º principal destino global e 3º no Oriente Médio. Os principais produtos exportados são milho, soja e açúcar.
A CNA classificou a exposição dos produtos da seguinte forma:
- Milho: Exposição sensível, com 23% das exportações brasileiras destinadas ao Irã, mas com risco menor no curto prazo devido à sazonalidade dos embarques entre agosto e janeiro.
- Carne bovina: Exposição baixa a moderada, com 6,8% da proteína brasileira exportada para o Oriente Médio, mas com queda precipitada nos preços.
- Soja e açúcar: Baixa exposição, com participação do Irã de 1,3% e 1,7% do total exportado, respectivamente, facilitando o redirecionamento a outros mercados.
No caso do frango brasileiro, cujo 23% das exportações são direcionadas ao Oriente Médio, a CNA afirmou ver esforço da indústria em adequar a logística. "Apesar de multas e fretes, a indústria está conseguindo readequar rotas diante do contexto", apontou a entidade.
Reflexos na carne bovina e ajustes de mercado
Lucchi destacou que foi verificada uma derrubada abrupta do preço pago ao pecuarista na carne bovina. "Chamou atenção o impacto estimado pela indústria da carne, porque a região não é rota para China e Estados Unidos. A arroba teve uma queda significativa, a qual consideramos precipitada porque não há percepção clara de custo logístico e do prolongamento do conflito, além de que as escalas de abate estão bem ajustadas", afirmou, sugerindo que a reação do mercado pode ter sido exagerada diante das incertezas.
Em resumo, a CNA alerta que o conflito no Oriente Médio representa um fator de pressão adicional para o agronegócio brasileiro, já enfrentando desafios econômicos, com potenciais reflexos na próxima safra e nas exportações, exigindo atenção redobrada dos produtores e autoridades.



