Brasil dispara importação de vinhos com crescimento de 20% nos gastos e diversificação do mercado
Em um cenário global de queda no consumo de vinho, o Brasil apresenta movimento contrário e expressivo. Nos últimos dois anos, o país registrou aumento de 20% nos gastos com vinhos importados e crescimento de 14,5% no volume, segundo dados do Ministério da Agricultura. A bebida, que antes era considerada um produto estritamente ocasional, agora integra o consumo doméstico regular dos brasileiros.
Transformação no comportamento do consumidor brasileiro
Desde a pandemia, observa-se uma mudança significativa nos hábitos de consumo. O brasileiro não apenas ampliou sua base de consumidores de vinho, como também desenvolveu maior familiaridade com diferentes uvas e estilos. "O consumidor brasileiro evoluiu de forma significativa nas últimas décadas", afirma Elias Cabral, sommelier profissional e representante comercial da Italy's Wine São Paulo. "O contato constante com novas experiências fez surgir um consumidor mais curioso, informado e disposto a explorar vinhos com maior complexidade, origem definida e identidade sensorial."
Países líderes nas importações brasileiras
O Chile mantém a liderança como principal fornecedor de vinhos para o Brasil, com US$ 213 milhões em 2025, seguido pela Argentina (US$ 101,4 milhões) e Portugal (US$ 84,4 milhões). Entre os produtores europeus, Portugal segue na dianteira, mas a Itália vem consolidando posição estratégica com crescimento contínuo das exportações para o Brasil: passou de US$ 38,5 milhões em 2023 para US$ 49,4 milhões em 2025, à frente da Espanha e em patamar próximo ao da França, que também registrou forte alta no período.
Fatores que explicam o protagonismo chileno
Os vinhos chilenos foram a principal porta de entrada do consumidor brasileiro para os rótulos importados. "Esse protagonismo se explica por fatores logísticos e acordos comerciais favoráveis", afirma Massimo De Grandis, especialista do mercado de vinhos e managing director para a América Latina da vinícola italiana Castellani. O Chile mantém acordo de livre comércio com o Brasil no âmbito da Associação Latino-Americana de Integração (Aladi), o que garante tarifa zero para vinhos — vantagem decisiva frente a produtores europeus. A proximidade geográfica também reduz custos logísticos e prazos de entrega, permitindo preços mais estáveis mesmo em cenários de dólar elevado.
Diversificação e formação de novos paladares
Paralelamente ao crescimento quantitativo, o consumidor brasileiro passou a encontrar maior diversidade nas prateleiras de supermercados e enotecas. Se antes a oferta era concentrada em rótulos simples, hoje o mercado reúne ampla variedade de origens, uvas e estilos. Cursos, degustações e ações promovidas por importadores também contribuíram para a formação de novos paladares. "Além disso, o estilo sensorial costuma ser mais acessível ao paladar de quem está começando, com perfil frutado, menor acidez e taninos mais macios", acrescenta De Grandis sobre os vinhos chilenos.
Consumo ainda abaixo de padrões internacionais
Apesar do crescimento expressivo, o consumo de vinho no Brasil permanece relativamente baixo em comparação com padrões internacionais. Enquanto em muitos países o consumo gira em torno de 4 litros per capita ao ano, no Brasil a estimativa é de cerca de 2,5 litros anuais por pessoa — pouco mais de três garrafas por ano. Este dado indica que, apesar do amadurecimento do mercado e da maior diversificação de consumo, ainda há espaço significativo para crescimento no setor vinícola brasileiro.
A transformação no mercado de vinhos importados no Brasil reflete não apenas mudanças econômicas e comerciais, mas também uma evolução cultural significativa. O brasileiro está se tornando um consumidor mais sofisticado e informado, disposto a explorar novas experiências sensoriais e a incorporar o vinho como parte regular de seu estilo de vida.