Operação Erga Omnes mira núcleo político do Comando Vermelho no Amazonas
A Polícia Civil do Amazonas deflagrou, na sexta-feira (20), a operação Erga Omnes, uma ação de grande porte contra um grupo criminoso ligado ao Comando Vermelho, suspeito de tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e corrupção. A operação ocorreu em Manaus e se estendeu a outros seis estados brasileiros, resultando na execução de 14 mandados de prisão, sendo oito deles no território amazonense.
Investigação teve início com apreensão histórica de drogas e armas
As investigações que culminaram na operação tiveram origem em um episódio ocorrido em 6 de agosto de 2025, quando uma equipe da Polícia Militar, em patrulhamento próximo à ponte do Educandos, na Zona Sul de Manaus, flagrou uma movimentação suspeita. Ao se aproximarem, os policiais presenciaram dez indivíduos desembarcando caixas de duas lanchas para um carro. Houve troca de tiros, e nove suspeitos conseguiram fugir, mas um homem foi preso em flagrante.
No veículo, foram apreendidos 523 quilos de maconha do tipo skunk, além de sete fuzis de uso restrito – seis de calibre 7.62 e um de calibre 5.56. Também foram confiscadas duas lanchas com motores 200HP e o carro utilizado no transporte. Essa apreensão monumental, que totalizou mais de meia tonelada de drogas, acionou as engrenagens da Polícia Civil, que abriu um inquérito para desvendar a estrutura por trás do esquema.
Esquema criminoso com estrutura organizada e alto poder financeiro
Durante as investigações, a polícia descobriu uma cadeia de comando bem estruturada, com operadores logísticos, financiadores e colaboradores que atuavam de forma coordenada. O grupo possuía núcleos operacionais com tarefas específicas, demonstrando um alto nível de organização. A estimativa das autoridades é que a quadrilha tenha movimentado cerca de R$ 70 milhões desde 2018, o equivalente a aproximadamente R$ 9 milhões por ano.
Para facilitar suas atividades, o Comando Vermelho estabeleceu rotas definidas para trazer drogas da Colômbia e distribuí-las pelo país a partir do Amazonas. Empresas de fachada, principalmente nos ramos de transporte e locação, foram criadas para ocultar a movimentação financeira ilícita e maquiar o transporte das drogas. Carros eram alugados em nome de terceiros para dificultar o rastreamento pelas autoridades.
Além disso, a polícia identificou indícios de tentativas de obtenção indevida de informações sigilosas relacionadas a procedimentos criminais, com o objetivo claro de antecipar ações policiais e judiciais que pudessem prejudicar o tráfico. Essa sofisticação operacional revela a profundidade da infiltração do grupo no aparato estatal.
Alvos de alto escalão incluem servidores públicos e ex-assessores
Entre os presos na operação Erga Omnes, destacam-se figuras ligadas ao poder público e a cargos de confiança. No Amazonas, os alvos incluíram:
- Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM);
- Anabela Cardoso Freitas – investigadora da Polícia Civil e integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus, que atuou como chefe de gabinete do prefeito David Almeida até 2023;
- Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas;
- Osimar Vieira Nascimento – policial militar;
- Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar.
Vale ressaltar que o prefeito de Manaus, David Almeida, não é investigado no âmbito desta operação. Além desses, outros indivíduos foram presos em diferentes estados, como Lucila Costa Meireles, de 42 anos, também apontada como integrante do núcleo político e que já exerceu cargos de assessoria parlamentar na Assembleia Legislativa do Amazonas e na Câmara Municipal de Manaus.
Líder do núcleo político está entre os foragidos
A operação resultou na prisão de 14 pessoas, mas outras nove continuam foragidas, entre elas Allan Kleber Bezerra Lima, apontado pela polícia como o líder do núcleo político do Comando Vermelho no Amazonas. A caça a esses fugitivos continua, com as autoridades empenhadas em desarticular completamente a estrutura criminosa.
Os investigados e presos devem responder por uma série de crimes graves, incluindo organização criminosa, tráfico de drogas, lavagem de dinheiro, corrupção e violação de sigilo funcional. A operação Erga Omnes representa um golpe significativo nas atividades do Comando Vermelho na região, expondo a intrincada rede de corrupção e infiltração em órgãos públicos que sustentava o esquema.
A deflagração desta operação em múltiplos estados demonstra a abrangência nacional do esquema e a necessidade de uma ação coordenada entre as forças de segurança. As investigações continuam, com a expectativa de que novos desdobramentos possam surgir, revelando ainda mais detalhes sobre a operação deste poderoso núcleo criminoso.