Influenciadora e ex-bailarina é acusada de integrar esquema de ocultação de recursos da facção criminosa
O Ministério Público de São Paulo apresentou denúncia formal contra a influenciadora digital e bailarina Natacha Horana Silva, conhecida como musa da torcida organizada Gaviões da Fiel, por suspeita de lavagem de dinheiro vinculada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A acusação, protocolada na quinta-feira (19) pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), detalha uma série de indícios financeiros, patrimoniais e documentais que, segundo os promotores, apontam para a ocultação sistemática de bens e movimentação de recursos ilícitos.
Relacionamento com líder do PCC e estrutura de ocultação
De acordo com as investigações do Ministério Público, Natacha manteve relacionamento amoroso com Valdeci Alves dos Santos, conhecido como Colorido, apontado pelas autoridades como um dos chefes da facção criminosa PCC. A promotoria sustenta que a influenciadora integrou o núcleo denominado "Grupo Valdeci – Parentes e Pessoas Próximas", estrutura criada especificamente para movimentar e dissimular valores atribuídos ao líder da organização criminosa.
Aquisição de imóvel e veículo de luxo com dinheiro vivo
Um dos pontos centrais da denúncia refere-se à aquisição de um imóvel e de um veículo Mercedes-Benz avaliado em R$ 320 mil. Segundo o MP-SP, os recursos para essas compras teriam origem direta no esquema criminoso liderado por Colorido, com o pagamento sendo realizado integralmente em dinheiro vivo – prática que, conforme os promotores, dificulta significativamente o rastreamento da origem dos valores. Natacha é acusada especificamente de ocultar e dissimular a propriedade desses bens.
O automóvel de luxo foi apreendido em 14 de novembro de 2024, durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão da Operação Argento, conduzida pela Polícia Civil de São Paulo. Após a apreensão, a empresa LNS Construtora, Incorporadora e Locação Ltda. ingressou com pedido de restituição, alegando ser a verdadeira proprietária do veículo e afirmando tê-lo emprestado a Natacha enquanto outro carro dela estaria em reparos.
Contudo, o Ministério Público considerou essa versão inconsistente, pois a documentação apresentada indicava apenas serviços de troca de bateria da chave e abastecimento, elementos que, segundo os promotores, não comprovam a propriedade do automóvel pela empresa.
Movimentações financeiras de R$ 15 milhões em dez anos
Outro aspecto crucial da denúncia são as movimentações financeiras atribuídas a Natacha Horana. De 2014 a 2024, ela teria movimentado impressionantes R$ 15,02 milhões entre créditos e débitos, conforme apuração do Ministério Público do Rio Grande do Norte, que compartilhou as provas com o MP-SP.
Os promotores destacam que houve aumento significativo dessas movimentações entre 2021 e 2023 – período em que Colorido estava foragido e, segundo as investigações, continuava comandando atividades do PCC. Os valores são considerados incompatíveis com os rendimentos de Natacha como bailarina e influenciadora digital. Após a prisão de Colorido, as movimentações financeiras teriam retornado a patamares anteriores, conforme detalhado na denúncia.
Repasses de grupo ligado ao esquema criminoso
Além do veículo de luxo, o Ministério Público aponta que Natacha e sua mãe teriam recebido mais de R$ 246 mil de integrantes do chamado "Grupo Pará", que também atuaria na ocultação de dinheiro ligado a Valdeci Alves dos Santos. Esses repasses reforçariam, segundo a acusação, a integração da influenciadora na estrutura de lavagem de capitais da facção.
Conexão com Operação Argento e situação processual
A nova denúncia está diretamente conectada à Operação Argento, conduzida pelo Ministério Público da Paraíba, que investigou as ligações da ex-bailarina do programa do Faustão com o líder do PCC. Em 14 de novembro de 2024, a Justiça decretou a prisão preventiva de Natacha, que permaneceu detida por quatro meses no presídio feminino de Franco da Rocha, na Grande São Paulo.
Ela já é ré na Justiça do Rio Grande do Norte por crimes de lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito e por suposta participação em organização criminosa ligada ao ex-namorado. Recentemente, Natacha Horana voltou a desfilar pela Gaviões da Fiel após cumprir o período de prisão preventiva.
Defesa alega inocência e violação processual
Em entrevista concedida antes do carnaval de 2026, Natacha se declarou inocente de todas as acusações. Ela afirmou que, quando conheceu Valdeci, ele se apresentava com outro nome e dizia ser proprietário de fazendas de gado. "Eu não cometi nenhum crime. Eles estão me associando com isso, mas meu advogado está provando a minha inocência. Fui solta porque eles não tinham prova suficiente para me manter presa. Infelizmente a Justiça demora, mas eu confio que ela vai ser feita", declarou a influenciadora.
Em nota oficial, o escritório do advogado Daniel Bialski, que defende Natacha, afirmou ter recebido com surpresa a notícia da denúncia do MP-SP e destacou que não teve acesso aos autos do processo. A defesa sustenta que a acusação repete fatos já apurados no Rio Grande do Norte, o que configuraria violação à proibição de dupla imputação, e afirma que Natacha foi injustamente envolvida na investigação apenas por ter mantido relacionamento amoroso com uma das pessoas investigadas, sem jamais ter praticado ato ilícito, direto ou indireto.
O caso segue em tramitação na Justiça paulista, enquanto a defesa prepara sua contestação formal às acusações apresentadas pelo Ministério Público.