Escândalo no STJ e aumento de denúncias colocam assédio sexual em evidência no Brasil
Escândalo no STJ e aumento de denúncias de assédio sexual

Escândalo no STJ e aumento de denúncias colocam assédio sexual em evidência no Brasil

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) enfrenta uma crise sem precedentes, com o ministro Marco Aurélio Buzzi, de 68 anos, no centro de um escândalo de assédio sexual. Afastado temporariamente após denúncias reveladas pela revista VEJA, o caso expõe uma mudança de comportamento nas vítimas, que estão cada vez mais dispostas a buscar justiça. Paralelamente, a Justiça do Trabalho registrou um aumento de 41% nas ações relacionadas a assédio sexual em 2025, totalizando 10.728 denúncias, a maioria feita por mulheres.

Denúncias contra Marco Buzzi abalam o STJ

Duas mulheres acusaram o ministro Buzzi de importunação sexual e abuso de poder. A primeira, uma estudante de 18 anos, relatou que ele tocou suas nádegas e a pressionou contra seu pênis durante um banho de mar em Balneário Camboriú, Santa Catarina. A segunda, uma ex-funcionária de seu gabinete, mencionou ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) pelo menos quatro abusos físicos, entregando uma gravação em que a chefe do gabinete minimiza a situação. Buzzi foi afastado por decisão unânime do STJ, e investigações estão em curso, com colegas cogitando sua aposentadoria compulsória.

Aumento histórico nas denúncias de assédio

O salto de 41% nas ações de assédio na Justiça do Trabalho em 2025 reflete uma tendência crescente de mulheres que buscam reparação legal. No entanto, uma pesquisa do LinkedIn mostra que 35% das brasileiras afirmam ter sofrido assédio no trabalho, mas apenas uma em cada dez formaliza a denúncia. A psicóloga Alessandra Almeida destaca que muitas vítimas carregam um estigma, em uma inversão de valores que as culpabiliza.

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Impactos profundos nas vítimas

Relatos de mulheres de diversas áreas, como a atriz Suzana Pires e a empresária Maytê Zaiden, revelam sequelas graves, incluindo estresse, depressão, perda de emprego e até rupturas familiares. Um estudo da Universidade Harvard acompanhou centenas de mulheres por cinco anos, constatando que 80% deixaram seus empregos dentro de dois anos após sofrerem assédio, muitas vezes sendo duplamente punidas.

Avanços legais e desafios persistentes

No Brasil, o assédio sexual entrou no Código Penal em 2001, com pena de até dois anos de prisão, inicialmente restrito a relações hierárquicas. Há quatro anos, o CNJ passou a enquadrar também casos sem vínculo formal de poder. Globalmente, países como Estados Unidos, França e Alemanha avançaram na legislação, mas o machismo entranhado ainda normaliza condutas intoleráveis. A deputada Tabata Amaral relata piadas e comentários inapropriados no Congresso, destacando a dificuldade de denunciar sem ser estigmatizada.

Movimento #MeToo e conscientização

O movimento #MeToo, impulsionado por acusações contra o produtor Harvey Weinstein em 2017, deu visibilidade global ao tema, com a hashtag sendo usada mais de 40 milhões de vezes em 85 países. No Brasil, versões como "Mexeu com uma, mexeu com todas" ganharam força, com casos como o da ministra Anielle Franco trazendo o assédio para o debate público. Empresas estão adotando políticas de prevenção e canais de denúncia, mas especialistas enfatizam a necessidade de meios anônimos para proteger as vítimas.

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Depoimentos de mulheres que romperam o silêncio

  • Luana Piovani, atriz, 49 anos: "Fui assediada aos 21 anos pelo diretor Carlos Manga, que pedia para eu sentar no seu colo. Só percebi a gravidade décadas depois."
  • Tabata Amaral, deputada federal, 32 anos: "Em uma reunião, um colega me interrompeu para perguntar quem eu queria provocar com meu batom. Me senti culpada."
  • Soraya Thronicke, senadora, 52 anos: "Um senador agarrou minha panturrilha durante uma reunião transmitida pela TV. O alertei discretamente para evitar escândalo."
  • Bruna Lombardi, atriz, 73 anos: "Nos anos 1990, sofri tantas investidas que perdi a conta. Respondia com elegância para não traumatizar."
  • Talíria Petrone, deputada federal, 40 anos: "Um deputado ficava me encarando enquanto lambia os lábios. Só parou quando gritei com ele."
  • Suzana Pires, atriz, 49 anos: "Após ser atacada por um chefe, engordei 8 quilos e entrei em depressão. A terapia me ajudou a me fortalecer."
  • Luísa Rosa, arquiteta, 35 anos: "Como primeira mulher na diretoria da CBF, tinha minha competência questionada e recebia convites inconvenientes. Hoje, processo a entidade."
  • Tayná Leite, advogada, 41 anos: "Em um ambiente masculino, ouvia comentários sobre meu corpo diariamente. Agora, denuncio qualquer situação de assédio."
  • Maytê Zaiden, empresária, 36 anos: "O CEO de um banco tentou me beijar à força. Fui demitida e até meu marido me culpou. Pedi divórcio e me mudei."
  • Elena Landau, economista, 67 anos: "Em Brasília, um colega colocava a mão na minha perna repetidamente. Só parou quando o constrangi em voz alta."

Próximos passos no caso Buzzi

Marco Buzzi aguarda sindicâncias no CNJ e análise do STF, devido ao foro privilegiado. Se condenado, pode enfrentar de um a cinco anos de prisão, possivelmente em regime aberto. Internado para acompanhamento cardíaco e emocional, ele pede "o benefício da dúvida". O caso simboliza um avanço na luta contra o assédio sexual, mas evidencia os desafios persistentes em uma sociedade onde o silêncio ainda é uma barreira a ser superada.