Traficante do PCC quebra tornozeleira e foge após soltura por desembargador punido
Chefe do PCC foge após soltura por desembargador punido

Traficante do PCC quebra tornozeleira eletrônica e foge após soltura controversa

Um dos maiores traficantes do Brasil, Gerson Palermo, considerado um dos principais chefes do Primeiro Comando da Capital (PCC), quebrou sua tornozeleira eletrônica e fugiu apenas oito horas após ser solto, em abril de 2020. O caso ganhou novos detalhes com a revelação de trocas de mensagens obtidas pela Justiça, que mostram a preocupação de assessores envolvidos na liberação do criminoso.

Desembargador é punido com aposentadoria compulsória

O desembargador aposentado Divoncir Schereiner Maran foi punido com aposentadoria compulsória pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) no dia 10 de fevereiro deste ano. A punição foi aplicada porque o magistrado concedeu prisão domiciliar a Palermo, que estava condenado a 126 anos de prisão por tráfico de drogas, associação para o tráfico e pelo sequestro de uma aeronave em 2000.

No Processo Administrativo Disciplinar (PAD), o CNJ reforçou que o fato de Gerson Palermo ser considerado idoso não seria suficiente para a prisão domiciliar, tratando-se de "indivíduo de elevada periculosidade". À época, a defesa do traficante alegou riscos à saúde durante a pandemia de Covid-19, mas o CNJ apontou falta de comprovação médica adequada.

Mensagens revelam suspeitas e desconforto entre assessores

O g1 teve acesso ao documento do CNJ que analisa a conduta do desembargador, apresentando prints de trocas de mensagens entre assessores que atuavam no gabinete. Em uma das conversas, um assessor menciona ter feito uma "gambiarra" para deferir o pedido de prisão preventiva conforme determinado por Divoncir Maran.

Outra mensagem de uma assessora expressa claramente o desconforto com a situação: "O desembargador mandou, eu obedeci. Mas nunquerianão. Na verdade, quem soltou, eu apenas fiz o que ele determinou." Essas trocas evidenciam a pressão interna e as dúvidas sobre a legalidade da decisão.

Operação investiga esquema de venda de sentenças no TJMS

O desembargador Divoncir Schereiner Maran é um dos sete investigados na operação Ultima Ratio, que apura um esquema de venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS). As mensagens obtidas pela Justiça sugerem que o magistrado já teria atuado com práticas irregulares antes da decisão que soltou Palermo.

Em diálogos reveladores, os assessores especulam sobre possíveis transações financeiras:

  • Assessor 1: "Custou quanto será?"
  • Assessor 2: "Não duvido nada viu."
  • Assessor 1: "Certeza"
  • Assessor 1: "Quem foi o desembargador?"
  • Assessor 2: "Divoncir."
  • Assessor 1: "Essa já tem fama neh"
  • Assessor 2: "Já... mas não é escrachada"

Histórico criminal de Gerson Palermo

Gerson Palermo acumula condenações graves que totalizam quase 126 anos de prisão:

  1. 59 anos por tráfico de drogas e associação para o tráfico - Investigados na Operação All In da Polícia Federal em 2017, que apreendeu 810 quilos de cocaína transportados da Bolívia até Corumbá (MS).
  2. 66 anos e 9 meses pelo sequestro de um Boeing 727 da Vasp - Ocorrido em agosto de 2000, quando a aeronave foi forçada a pousar em Porecatu (PR) e a quadrilha roubou R$ 5,5 milhões do Banco do Brasil.

Divoncir Maran concedeu a liberdade a Palermo durante o plantão do feriado de Tiradentes em 2020, decisão que o CNJ considerou ter extrapolado os limites da atuação judicial.

Investigações apontam irregularidades financeiras

Além das questões processuais, o Conselho Nacional de Justiça destacou que investigações da Polícia Federal identificaram movimentações financeiras incompatíveis com a renda declarada do magistrado. O relator do PAD, conselheiro João Paulo Schoucair, afirmou que os fatos demonstram violação aos deveres de imparcialidade, prudência e decoro exigidos de integrantes do Judiciário.

A fuga de Gerson Palermo continua sem solução, enquanto as investigações sobre o esquema de venda de sentenças no TJMS avançam, levantando questões sobre a integridade do sistema judicial em Mato Grosso do Sul.