Um terço dos jovens homens defende que mulher deve obedecer ao marido, aponta estudo global
Contrariando a ideia de que as novas gêrações são naturalmente mais progressistas, uma pesquisa internacional realizada pela Ipsos em parceria com o Instituto Global de Liderança Feminina do King's College London revelou dados surpreendentes sobre atitudes em relação à igualdade de gênero. O levantamento, que ouviu 23 mil pessoas em 29 países, demonstra que homens da Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012) são os que mais concordam com visões tradicionais sobre o comportamento de homens e mulheres na sociedade contemporânea.
Dados alarmantes sobre conservadorismo entre jovens
O estudo aponta que 31% dos jovens homens da Geração Z acreditam que a esposa deve sempre obedecer ao marido. Este índice é mais que o dobro do registrado entre os homens da geração Baby Boomer (nascidos entre 1946 e 1964), onde apenas 13% compartilham dessa visão. Entre os Millennials, 29% concordam com a afirmação.
Segundo especialistas ouvidos para a análise dos resultados, embora os números chamem atenção, não chegam a ser completamente surpreendentes. O crescimento de visões conservadoras entre parte dos jovens sobre as relações entre homens e mulheres já vem sendo observado em diferentes pesquisas e reflete um momento mais amplo de fortalecimento do conservadorismo moral na sociedade global.
Brasil se destaca em índices de concordância com visões tradicionais
Os novos dados mostram que o Brasil está entre os países com maiores percentuais de concordância com afirmações ligadas a visões tradicionais sobre homens e mulheres:
- 70% dos brasileiros sentem que está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade, índice muito superior à média global de 46%
- 21% dos brasileiros concordam que a esposa deve sempre obedecer ao marido, colocando o país na 9ª posição entre 29 nações
- 16% dos homens brasileiros concordam que homens que participam do cuidado com os filhos são menos masculinos
- 17% dos brasileiros concordam totalmente que uma mulher "de verdade" não deve iniciar o sexo
Especialistas analisam as causas da persistência de valores tradicionais
Para a socióloga Felicia Picanço, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o espanto com os resultados vem da crença equivocada de que existe um caminho inflexível em direção à adesão a valores mais igualitários. "Nenhuma experiência humana é estática e caminha em uma só direção", explica a pesquisadora.
Maíra Liguori, presidente da Think Olga, organização social focada em promover o debate público e a equidade de gênero, complementa: "O fato de um terço dos homens da geração Z concordarem que a esposa deve obedecer ao marido reflete discursos que existem na sociedade há muito tempo. Embora tenha havido um movimento forte de mulheres reivindicando autonomia e independência, ainda persistem discursos machistas e conservadores."
O papel das redes sociais e da cultura na formação de valores
As redes sociais têm contribuído significativamente para a formação de ambientes que reforçam e reproduzem valores tradicionais de gênero. Um estudo realizado em 2024 pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em parceria com o Ministério das Mulheres identificou um crescimento preocupante do discurso de ódio contra mulheres na internet.
Entre 2018 e 2024, foram identificados 137 canais que propagam misoginia, com alguns criadores vendendo livros e cursos que defendem o ódio contra mulheres independentes e feministas. Para especialistas, parte das respostas registradas na pesquisa pode estar relacionada à influência dessas comunidades online.
Resistência aos avanços da igualdade e perspectivas futuras
A pesquisa também revela que parte significativa da população acredita que os avanços na igualdade de gênero já foram suficientes. Cerca de metade dos entrevistados (52%) afirma que os esforços para garantir direitos iguais às mulheres já foram longe o suficiente em seus países.
Além disso, 46% dos participantes concordam que "está sendo exigido demais dos homens para apoiar a igualdade", enquanto 44% acreditam que a promoção da igualdade feminina chegou a um ponto de discriminar os homens.
Segundo Christian Dunker, professor de psicanálise da Universidade de São Paulo (USP), transformações sociais profundas costumam gerar reações diferentes dentro da sociedade. "Existe uma falsa associação entre valores conservadores e práticas conservadoras. Uma pessoa pode defender valores tradicionais e, ainda assim, ter práticas progressistas ou o contrário", explica o especialista.
O futuro das relações de gênero
Para Felicia Picanço, houve avanço na adesão a valores menos hierarquizados entre os gêneros, mas ainda há resistência em relação à redistribuição de responsabilidades dentro da família. "Alcançamos um nível maior de adesão a valores menos hierarquizados de gênero, ou seja, reduziu-se a crença de que a mulher é inferior aos homens. Mas ainda existe resistência a mudanças maiores nos valores que essencializam os atributos femininos", analisa a socióloga.
Maíra Liguori mantém uma perspectiva otimista: "Para continuar fazendo o que eu faço, eu preciso acreditar que estamos caminhando numa direção melhor do que a que estamos hoje. Independentemente das minhas convicções individuais, eu acredito que estamos avançando."
A pesquisa analisou atitudes em relação à igualdade de gênero em 29 países, revelando tanto contradições quanto coerências nas visões sobre papéis sociais. Enquanto os homens da Geração Z são os mais propensos a acreditar que uma mulher não deve parecer muito independente, também foram o grupo mais propenso a afirmar que mulheres com carreira de sucesso são mais atraentes (41% concordam, comparado com 27% dos Baby Boomers).



