Psicanálise e Toxicomania: A Visão Freudiana sobre Drogas como Remédio e Veneno
Psicanálise e Toxicomania: A Visão Freudiana sobre Drogas

Psicanálise e Toxicomania: A Visão Freudiana sobre Drogas como Remédio e Veneno

Quando abordamos o uso abusivo de substâncias entorpecentes, diversos termos emergem na literatura médico-psiquiátrica para defini-lo: vícios, dependências, compulsões. Desse modo, torna-se fundamental estabelecer uma distinção clara entre o uso recreativo, pontual, regulado, com fins religiosos ou de autoconhecimento, e o abuso dessas substâncias, que se situa no campo do excesso e do gozo desmedido.

Definindo a Toxicomania

Os vícios referem-se a comportamentos prejudiciais, hábitos repetitivos e manias sobre os quais o indivíduo relata não ter controle. O termo toxicomania foi consolidado no vocabulário médico-europeu durante o século XIX para designar aqueles que apresentam uma mania – uma obsessão, um impulso quase incontrolável – pelo consumo de substâncias entorpecentes.

A Contribuição Freudiana

E o que a psicanálise tem a dizer sobre esse fenômeno complexo? Embora as primeiras referências freudianas aos entorpecentes em suas publicações datem de 1897, Freud iniciou suas pesquisas sobre o tema em 1883, após a leitura de um artigo de Aschenbrandt que descrevia os efeitos da cocaína em soldados.

Em 1885, Freud escreveu um artigo intitulado Über Coca, no qual realizou um estudo aprofundado sobre a história do uso da cocaína na América do Sul, sua difusão na Europa ocidental, seus efeitos em seres humanos e animais, e suas potenciais aplicações terapêuticas.

Nessa publicação pioneira, Freud descreveu como as drogas podem funcionar como estimulantes, aumentando temporariamente a capacidade física do corpo, e também como poderiam ser utilizadas no tratamento de distúrbios digestivos, como afrodisíacos ou para aliviar os sintomas da abstinência de morfina.

Droga como Pharmakon: Remédio e Veneno

Freud propôs investigar os efeitos da cocaína nos indivíduos sob um aspecto dinâmico e econômico. Contudo, ao longo de suas pesquisas, constatou que os sintomas subjetivos dos efeitos da cocaína variavam significativamente de pessoa para pessoa.

Assim, enquanto para alguns indivíduos o uso regulado de cocaína demonstrou sucesso em relação aos efeitos terapêuticos analgésicos e anestésicos, para outros revelou-se um fracasso completo, conduzindo ao vício, à intoxicação e até mesmo ao apagamento do inconsciente.

Desse modo, ainda que para Freud o recurso à substância se apresentasse como uma forma de automedicação para sujeitos cuja libido permaneceu fixada numa fase autoerótica – evidenciando uma perturbação na fusão entre pulsão e fantasia durante a constituição psíquica –, essa saída poderia conduzir às piores consequências.

O Mal-Estar na Civilização

Conforme asseverava Freud em seu texto O Mal-Estar na Civilização, os entorpecentes funcionam como amortecedores de preocupações, uma busca por pacificação diante do mal-estar inerente à vida civilizada. Contudo, o uso de narcóticos como medida paliativa tem um custo elevadíssimo.

"Uma satisfação irrestrita de todas as necessidades apresenta-se-nos como o método mais tentador de conduzir nossas vidas; isso, porém, significa colocar o gozo antes da cautela, acarretando logo seu próprio castigo", alertava Freud em 1930.

A Dimensão Social da Dependência

A partir dessa reflexão, a dimensão social do recurso às substâncias torna-se evidente. Para a psicanálise contemporânea, a dependência patológica representa uma forma de autoterapia – uma tentativa desesperada de tratamento "para lidar com algo insuportável que atravessa a sua existência".

Todavia, trata-se igualmente de uma autoterapia mortífera, pois está a serviço de um supereu sádico "que ordena ao sujeito que goze da substância, sem limites".

Conclusão: Do Gozo da Droga ao Gozo da Palavra

Assim, a concepção da droga como pharmakon – conceito estabelecido na Grécia antiga com significado duplo e ambíguo, designando simultaneamente remédio e veneno – permanece profundamente atual.

A droga pode ser benéfica ou maléfica, conforme a dose, o uso e sua função específica: pode operar como medicamento, promovendo regulação ou apaziguamento do gozo, bem como pode funcionar como veneno, nocivo e tóxico, podendo inclusive levar a efeitos catastróficos como a morte.

Cabe então à psicanálise pensar e propor tratamentos que considerem a função da droga para cada sujeito em sua singularidade, com o objetivo de resgatar a subjetividade inconsciente excluída ou construir novas soluções mais eficazes, duradouras e menos danosas do que aquelas alcançadas através da substância.

O desafio final consiste em possibilitar que esses sujeitos possam transitar do gozo da droga para o gozo da palavra, encontrando na linguagem e no vínculo humano alternativas mais saudáveis para lidar com o mal-estar da existência.