Limerência: o desejo obsessivo que pode devastar vidas e como combatê-lo
O neurocientista Tom Bellamy vivia um casamento feliz quando desenvolveu sentimentos intensos por uma colega de trabalho. Apesar de amar sua esposa e não desejar um relacionamento com a colega, ele não conseguia parar de pensar nela. Essa experiência não era um simples crush, mas sim um fenômeno psicológico conhecido como limerência.
O que é a limerência?
Cunhado como termo psicológico nos anos 1970 pela psicóloga Dorothy Tennov, a limerência representa uma conexão intensa, desgastante e frequentemente obsessiva por outra pessoa. Diferente de outros sentimentos amorosos, ela se caracteriza por um estado mental alterado que, inicialmente, pode parecer eufórico, mas que rapidamente se torna uma experiência estressante e debilitante.
"A limerência é mais bem descrita como um estado de espírito alterado", explica Bellamy. "No começo, parece fantástico - uma euforia natural que aumenta energia e otimismo. Por isso você se vicia. Seus pensamentos voam e você simplesmente se sente mais otimista e eufórico."
Como a limerência se manifesta
Um aspecto crucial da limerência é que ela alimenta uma sensação constante de incerteza. Enquanto em situações amorosas convencionais a pessoa supera a fase inicial de dúvidas, o indivíduo limerente fica preso em um ciclo de desejo e esperança.
"A incerteza é realmente uma das principais forças que a levam a se desenvolver até se tornar o que eu chamaria de 'dependência', em que você literalmente fica em um estado de desejo constante", detalha Bellamy.
O psicólogo cognitivo-comportamental Ian Tyndall, da Universidade de Chichester, no Reino Unido, explica que algumas pessoas nem mesmo desejam um relacionamento sexual ou amoroso com o objeto de sua limerência. "Eles querem apenas que seus sentimentos sejam recíprocos", afirma.
Consequências devastadoras
A limerência pode trazer sérios prejuízos para a vida pessoal e profissional. Os afetados podem:
- Negligenciar alimentação, sono e higiene pessoal
- Ter dificuldades para manter o emprego
- Descuidar de relacionamentos com família e amigos
- Experimentar queda significativa na produtividade
"Eles tendem a ficar presos no passado, pensando nas suas interações anteriores com aquela pessoa, tentando ruminar e pensar no significado daquela interação", descreve Tyndall. "Seu pensamento fica total e absolutamente preso com a pessoa, que domina tanto a sua vida que não sobra espaço para mais nada."
Diferenças entre limerência, fascínio e paixão
Embora possa ser confundida com outros estados emocionais, a limerência possui características distintas:
- Fascínio: ocorre no início de relacionamentos, dura de três meses a um ano e traz menos consequências negativas
- Paixão romântica: envolve desejo de intimidade emocional e física, com componente ruminante menos intenso
- Limerência: estado obsessivo que pode durar de 18 meses a três anos ou mais, com impactos profundos na saúde mental
A professora Kathleen Carswell, do Departamento de Psicologia da Universidade de Durham, destaca que "uma pessoa limerente não sente apenas forte desejo de ter intimidade com aquela pessoa. Ela também ficará ruminando obsessivamente sobre aquele indivíduo".
Riscos e comportamentos associados
Em casos extremos, a limerência não controlada pode evoluir para comportamentos prejudiciais como stalking (perseguição). Dorothy Tennov alertou em seus estudos que a limerência pode levar pessoas a comportamentos antissociais obsessivos.
No entanto, a professora de ciberpsicologia Emma Short, da Universidade Metropolitana de Londres, ressalta que "a limerência por si só não é uma patologia, nem foi associada a transtornos de personalidade". Ela explica que existe uma integridade pessoal na limerência que a diferencia de comportamentos de perseguição.
Como superar a limerência
Tom Bellamy encontrou uma solução para sua experiência limerente: "Basicamente, eliminei pela raiz", conta ele. Sua estratégia envolveu evitar contato com a pessoa objeto de sua obsessão, o que gradualmente reduziu o estado de dependência.
Tennov também documentou em suas pesquisas que a limerência pode desaparecer aos poucos quando:
- O contato é cortado completamente
- Há rejeição clara por parte da pessoa desejada
- Não há mais "lampejos" de esperança de reciprocidade
No caso de Bellamy, a abertura com sua esposa sobre seus sentimentos foi fundamental. "Este relacionamento funcionou", ele relata. "Nós nos apaixonamos de forma adequada - um amor clássico, baseado no respeito mútuo, afeição mútua, cuidado mútuo e desejo."
Pesquisas e reconhecimento
A limerência ainda é pouco estudada pela psicologia e não é formalmente reconhecida como condição psicológica para tratamento. O interesse pelo tema, no entanto, vem crescendo significativamente desde 2020, conforme indicam dados do Google Trends.
Tyndall e seus colegas desenvolveram um questionário sobre limerência que recebeu respostas de mais de 600 pessoas. Os resultados indicam que a limerência é "uma condição debilitante muito mais profunda" que o apego ansioso, embora possa estar relacionada a ele.
Alguns pesquisadores especulam sobre possíveis relações com transtornos como TOC, TDAH ou TEPT, mas ainda existem poucas pesquisas conclusivas sobre essas conexões.



