Algoritmos de jogos online criam 'armadilha cerebral' e agravam vício em apostas
Algoritmos de jogos online criam armadilha cerebral e agravam vício

Algoritmos de jogos online estimulam o cérebro e intensificam compulsão por apostas

O vício em jogos online levou uma diarista de Campinas, no interior de São Paulo, a acumular uma dívida impressionante de R$ 6 mil, impulsionada por uma sensação descontrolada de continuar apostando. A mulher, que preferiu não se identificar, relatou ter perdido inclusive o salário inteiro de um mês em apostas, mergulhando em uma situação financeira crítica.

"Eu perdi tudo. Tipo, o pagamento inteiro de você trabalhar um mês e colocar o seu pagamento todo e não ter nenhum retorno. A única coisa que vem na mente é a vontade de apostar, de jogar, arriscar. Parece uma adrenalina, sabe? Daquele frenesia assim, você quer apostar. É o vício mesmo, né? Como quem fuma, quem bebe", desabafou a diarista.

Influência digital e consequências devastadoras

Segundo seu relato, amigos e influenciadores digitais a introduziram no mundo dos jogos de apostas, resultando apenas em contas acumuladas e profundo arrependimento. O aspecto mais doloroso, conforme ela mesma destacou, foi o impacto nas pessoas mais próximas.

"O ponto assim que mais me pegou mesmo até hoje foi magoar aquela pessoa, uma das pessoas que eu mais amo, sabe? Que foi ter usado o dinheiro dele, o único dinheiro de renda que ele tem no mês, para poder colocar nesse vício que até hoje só me prejudicou. Se eu falar que trouxe alguma coisa boa para mim, não trouxe", afirmou emocionada.

Crescimento alarmante do problema

Esta realidade vem se tornando cada vez mais comum no Brasil. Dados da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo revelam que o número de atendimentos a pacientes por vício em jogos online no estado aumentou quase 15% entre 2024 e 2025, indicando uma tendência preocupante de crescimento.

A armadilha cerebral dos algoritmos

Especialistas explicam que os algoritmos utilizados nesses jogos criam uma verdadeira "armadilha para o cérebro do apostador". Diferente de outros tipos de jogos, as apostas online trabalham continuamente com o chamado "sistema de recompensa do cérebro", que responde de forma mais intensa e rápida.

Esses mecanismos ativam estímulos sensoriais que provocam aumento na atividade dos neurônios e liberação maior de dopamina, neurotransmissor responsável pela recompensa, motivação e prazer. Em outras palavras, os jogos são capazes de alterar a química cerebral, de maneira similar ao que ocorre com drogas, álcool e outros vícios.

"Muda completamente, principalmente quando há uma repetição, porque há liberação da dopamina, um neurotransmissor considerado um hormônio do bem, porque é responsável pelo prazer, pela motivação. Só que em excesso o cérebro busca cada vez mais essa recompensa imediata. É como cada conquista, cada fase que passa no jogo, aperta aquele botão do prazer. Então o cérebro quer cada vez mais", explica a psicóloga Juliana Pintor Furlanetto.

Sinais de alerta e consequências graves

A psicóloga destaca que o corpo começa a dar sinais claros do vício em apostas, incluindo:

  • Alterações significativas no padrão de sono
  • Problemas nas relações escolares e pessoais
  • Dificuldade extrema em lidar com frustrações
  • Esforços simples se tornam tarefas complexas

"A pessoa não consegue lidar com a frustração. Qualquer pequeno esforço se torna um grande esforço. E vai afetar tudo. A economia, a família, todos os tipos de relações. Isso é muito prejudicial, muito grave", completa Furlanetto.

Impacto abrangente na vida dos apostadores

A compulsão por jogos de aposta causa graves problemas de saúde mental e frequentemente provoca afastamentos do trabalho, criando um ciclo destrutivo que afeta múltiplas dimensões da vida. O caso da diarista de Campinas serve como alerta para um problema que atinge cada vez mais brasileiros, especialmente com a popularização das plataformas de apostas online.

Especialistas reforçam a importância de reconhecer os sinais do vício e buscar ajuda profissional quando o controle sobre os jogos se perde, já que as consequências podem ser devastadoras tanto para a saúde mental quanto para a estabilidade financeira e familiar.