Mãe de menino autista que caiu do 10º andar relata julgamento: 'Não sabem o que é conviver'
Mãe de menino autista que caiu do 10º andar fala sobre julgamento

Mãe de menino autista que caiu do 10º andar desabafa sobre julgamento e desafios

Após o susto que quase tirou a vida de seu filho, Paloma agora enfrenta outra dor profunda: o julgamento alheio. Mãe de Brenno, menino autista não verbal de apenas 4 anos que caiu do décimo andar de um prédio em Ribeirão Preto, ela revela que as críticas recebidas após o acidente foram mais cruéis do que poderia imaginar.

"As pessoas não medem o que falam"

"As pessoas não medem o que falam, não sabem o que é conviver com autista", desabafa Paloma com voz emocionada. "Brenno não tem amigo na escola, nunca foi chamado para um aniversário", complementa, destacando o isolamento social que muitas crianças no espectro autista enfrentam.

A mãe explica que a família vive em atenção constante, dedicando-se integralmente aos cuidados do filho. "Sempre atenção com o Brenno, 24 horas. Ele nunca quebrou um braço. Mas o julgamento sempre vem", relata, mostrando a ironia de um acidente ocorrer justamente após anos de vigilância extrema.

O peso da culpa materna

Paloma admite que também enfrenta seu próprio julgamento interno. "O pior julgamento é o meu. Eu me culpo. Eu não durmo mais", confessa. Apesar da dor, ela busca não se deixar consumir por sentimentos negativos e expressa gratidão pelo apoio recebido durante o momento crítico.

"Eu tenho que agradecer demais, porque foram muitas bolsas de sangue que doaram, sabe? Muitas orações", afirma, reconhecendo a solidariedade que amenizou o sofrimento da família.

Um alerta importante para outras famílias

Com a experiência traumática vivida, Paloma deixa um recado crucial para outros pais: "Coloquem tela nos banheiros. As pessoas não sabem do que uma criança é capaz". O conselho vem da constatação de que Brenno conseguiu escalar até a janela do banheiro, onde ocorreu o acidente no dia 27 de dezembro de 2025.

Os detalhes médicos que explicam a sobrevivência

O caso de Brenno chamou atenção não apenas pela gravidade, mas pela impressionante sobrevivência. Médicos especialistas analisaram as circunstâncias que permitiram que o menino sobrevivesse a uma queda estimada em aproximadamente 30 metros de altura.

A dinâmica da queda

Segundo a polícia e relatos familiares, Brenno não caiu diretamente no chão. Carlos Daniel Fernandes, pai do menino, conta que "na hora que ele caiu, bateu na janela que estava aberta". Depois, o menino ainda atingiu um corrimão antes de chegar ao solo.

A ortopedista pediátrica Caroline Marconatto Flores explica que esses impactos intermediários foram decisivos: "Ao ele ir parando e amortecendo, acaba diminuindo a velocidade da queda". Cálculos forenses indicam que, sem essas barreiras, Brenno atingiria o solo a aproximadamente 85 km/h.

As lesões e o tratamento

Os exames médicos revelaram um quadro menos grave do que se poderia esperar:

  • Trauma leve na cabeça, mas sem danos cerebrais significativos
  • Pequena lesão pulmonar sem gravidade
  • Coluna vertebral preservada
  • Fraturas múltiplas nos membros inferiores (ambos os fêmures e tíbias)

O tratamento envolveu três cirurgias, incluindo a colocação de fixadores externos inicialmente, seguida por procedimentos para implantar pinos e placas nos ossos fraturados.

Fatores que favoreceram a recuperação

Vários elementos convergiram para o desfecho positivo:

  1. Localização privilegiada: O hospital para onde Brenno foi levado fica a apenas uma quadra do prédio da família, permitindo socorro imediato
  2. Infraestrutura adequada: A unidade hospitalar é referência em traumas e dispunha de toda estrutura necessária para as cirurgias
  3. Idade favorável: Como explica o ortopedista pediátrico Pedro Francisco Moreno, "a criança tem um osso diferente do adulto, ainda em formação. A gente consegue, muitas vezes, contar com um remodelamento ósseo"

O socorro rápido

A resposta emergencial foi exemplar: apenas sete minutos após o chamado ao SAMU, a ambulância já estava no local. A ortopedista Caroline Flores inicialmente recebeu informações de uma queda de 10 metros, mas logo soube que se tratava do décimo andar. "Então, eu pensei: nossa, muito pior", relembra.

Um caso registrado como acidente

As autoridades registraram o ocorrido como acidente doméstico. Um laudo pericial está em elaboração para detalhar com precisão a dinâmica da queda. Enquanto isso, a família segue acompanhando a recuperação de Brenno, que já mostra sinais positivos de melhora um mês após o trauma.

O caso serve como alerta para a necessidade de medidas preventivas em residências com crianças, especialmente aquelas no espectro autista que podem apresentar comportamentos imprevisíveis. A história de Brenno também evidencia os desafios enfrentados por famílias de pessoas com autismo, que muitas vezes precisam lidar não apenas com as dificuldades do dia a dia, mas também com o julgamento e a incompreensão social.