Pinhão engorda? Essa é uma dúvida comum sobre a semente da araucária, consumida há centenas de anos pelos povos originários como alimento energético nos períodos frios. Para esclarecer a questão, o g1 conversou com a nutricionista Kassia Milena de Oliveira, que explicou que a resposta é sim e não, dependendo da quantidade consumida e do modo de preparo.
Com a chegada do frio, o pinhão invade mercados, mercearias e bancas de vendedores ambulantes no Sul do país, onde se concentra 70% da produção nacional. O Paraná é o maior produtor, responsável por mais de um terço de toda a colheita brasileira.
O que é o pinhão?
O pinhão é a semente da Araucaria angustifolia (pinheiro-brasileiro ou araucária), árvore nativa da Mata Atlântica. Consumido principalmente na região Sul do Brasil durante o inverno, é retirado da pinha, o fruto da araucária. A colheita é permitida apenas em períodos específicos, determinados por lei.
Nutrientes do pinhão
A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) realizou uma pesquisa em 2018 para desenvolver uma tabela nutricional da semente. Foram analisadas amostras de pinhões in natura e cozidos, colhidos em Irati (PR), Três Barras (SC) e Passo Fundo (RS). Os resultados mostram diferenças na composição: durante o cozimento, alguns elementos são concentrados, enquanto outros são incorporados à água.
Tabela nutricional do pinhão (a cada 100g):
- Valor calórico: cru 192,69 kcal; cozido 160,58 kcal
- Proteínas: cru 3,85 g; cozido 3,62 g
- Carboidratos: cru 40,88 g; cozido 33,24 g
- Fibras: cru 4,78 g; cozido 5,53 g
- Minerais: cru 2,06 g; cozido 0,94 g
- Lipídios: cru 1,53 g; cozido 1,46 g
- Umidade: cru 46,90 g; cozido 55,21 g
Os pesquisadores destacaram pontos positivos: o pinhão é rico em calorias, sendo útil para trabalhadores braçais, atletas, crianças e adolescentes em fase de crescimento; rico em fibras, contribui na prevenção de doenças intestinais e cardiovasculares; e rico em potássio, que ajuda a controlar a pressão arterial e relaxar a musculatura. A Embrapa também ressalta a presença de ácidos graxos linoléico (ômega 6) e oléico (ômega 9), que reduzem o colesterol e previnem doenças cardiovasculares.
Composição mineral do pinhão (a cada 100g):
- Cobre: cru 0,20 mg; cozido 0,17 mg
- Zinco: cru 0,66 mg; cozido 0,58 mg
- Manganês: cru 0,19 mg; cozido 0,24 mg
- Ferro: cru 0,90 mg; cozido 1,55 mg
- Magnésio: cru 49,38 mg; cozido 40,70 mg
- Cálcio: cru 24,72 mg; cozido 29,93 mg
- Fósforo: cru 135,43 mg; cozido 117,80 mg
- Enxofre: cru 39,20 mg; cozido 36,91 mg
- Potássio: cru 692,13 mg; cozido 500,46 mg
- Sódio: cru 0,67 mg; cozido 1,53 mg
O que a nutrição diz sobre o consumo do pinhão?
Segundo a nutricionista Kassia Milena de Oliveira, o pinhão é um dos alimentos mais funcionais e nutritivos que existem. Ela explica que o alto valor calórico e nutritivo se deve à “inteligência” da natureza, que oferece alimentos energéticos no inverno. Além disso, o pinhão proporciona mais saciedade que outros alimentos calóricos, graças às fibras do tipo “amido resistente”, que demoram mais para digerir.
A profissional também destaca outros benefícios:
- Ácido pinolênico: presente apenas no pinhão, estimula hormônios que aumentam a saciedade e auxiliam na digestão.
- Zinco, cobre e vitamina C: fortalecem a imunidade.
- Potássio: ajuda no controle da pressão arterial.
- Magnésio: combate dores articulares, fibromialgia e até esquecimento.
- Luteína: antioxidante que protege a visão, principalmente no envelhecimento.
“O pinhão é considerado uma oleaginosa, da família das castanhas, rico em ômega-3 e ômega-9. Nenhum outro alimento dessa família tem tanto potencial de minerais e amidos resistentes para o intestino”, conclui a nutricionista.
Como encaixar o pinhão na dieta com saúde?
Kassia explica que 100 gramas de pinhão (equivalente a um punhado, uma colher de servir ou cerca de 10 pinhões com casca) representam um lanche ou a porção de carboidrato de uma refeição principal em uma dieta de 1.200 calorias diárias. Para reduzir as calorias, o ideal é consumi-lo cozido, sem adicionais como manteiga, bacon ou mandioca.
Como o pinhão tem amido resistente, não provoca picos de glicose e pode ser usado para aumentar a saciedade entre as refeições. “O horário ideal seria de 2 a 3 horas após uma refeição e antes da próxima. Por exemplo, se você sente muita fome às 18h, consuma o pinhão por volta das 15h”, orienta a nutricionista.
No entanto, ela alerta que o pinhão pode causar gases devido aos antinutrientes fitatos e taninos. Para reduzir esse efeito e melhorar a absorção de minerais, recomenda-se deixar o pinhão de remolho por 8 a 12 horas antes do cozimento e descartar a água.
A produção de pinhão em números
Segundo o IBGE, em 2024 o Brasil produziu quase 13,5 mil toneladas de pinhão, sendo 35,4% no Paraná, onde a colheita somou quase 9,5 toneladas. Somando Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a região Sul representou 70% da produção nacional. Outros estados produtores incluem São Paulo e Minas Gerais. O município de Pinhão, no centro do Paraná, liderou o ranking municipal com 880 toneladas colhidas.



