Médicos exploram brecha e vendem implantes anabolizantes para fins estéticos
Médicos vendem implantes anabolizantes para estética

Médicos exploram brecha e seguem vendendo implantes anabolizantes para fins estéticos

Cansaço, queda de libido, dificuldade para ganhar massa muscular, sensação de envelhecimento. Para muitos homens, a internet passou a oferecer uma resposta rápida para sintomas complexos: testosterona. Mas um estudo internacional publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism encontrou um cenário preocupante: a maioria dos sites de clínicas que oferecem tratamento hormonal masculino divulga informações que contrariam diretrizes médicas ou prometem benefícios sem respaldo científico.

Os pesquisadores analisaram 253 sites de clínicas e serviços voltados ao tratamento hormonal em diferentes regiões do mundo, incluindo América do Norte, Europa, América do Sul, Ásia e Oriente Médio. O levantamento identificou que 86% dos sites apresentavam ao menos uma alegação incompatível com consensos médicos internacionais. Entre as promessas mais frequentes estavam melhora de energia e fadiga (63,2%), benefícios psicológicos (62,5%), melhora da composição corporal (64,4%) e até efeitos “anti-aging”, encontrados em quase 10% dos sites.

A pesquisa também encontrou clínicas oferecendo testosterona para homens com níveis hormonais considerados normais — prática identificada em quase 10% dos sites analisados. Para Bernardo Hermanson, urologista e andrologista membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia, parte do problema está na forma como a testosterona passou a ser apresentada no ambiente digital. “É incorreto vender a testosterona como uma ‘fórmula de rejuvenescimento’ ou solução universal para cansaço e envelhecimento”, afirma.

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A testosterona virou resposta para tudo

O estudo aponta que o crescimento global das prescrições de testosterona não foi acompanhado por aumento equivalente nos casos reais de hipogonadismo — única condição para a qual a prescrição de testosterona é validada, caracterizada pela deficiência hormonal comprovada por sintomas e exames laboratoriais. Segundo Hermanson, sintomas inespecíficos passaram a ser automaticamente associados à chamada “testosterona baixa”, mesmo quando podem ter múltiplas causas. “Muitos homens chegam ao consultório já convencidos de que qualquer queda de energia ou rendimento significa ‘testosterona baixa’”, diz.

O especialista explica que cansaço, queda de libido, perda de massa muscular e desânimo também podem estar ligados a estresse crônico, privação de sono, obesidade, ansiedade, depressão, sedentarismo, apneia do sono e diabetes. “O diagnóstico correto exige associação entre sintomas compatíveis e testosterona baixa confirmada em exames realizados adequadamente”, afirma.

Os autores do estudo chamam atenção justamente para a expansão de promessas hormonais além das indicações reconhecidas pelas diretrizes médicas. Entre os conteúdos encontrados estavam alegações de melhora metabólica, proteção cardiovascular, rejuvenescimento e protocolos de “microdosagem” hormonal.

Envelhecer não é doença

Para os pesquisadores, parte do fenômeno está ligada à transformação de sintomas comuns do envelhecimento masculino em sinais de deficiência hormonal. A análise identificou ainda o uso frequente do termo “andropausa” — expressão que não tem consenso entre sociedades médicas — e estratégias de marketing associadas a performance, vitalidade e produtividade masculina. “Hoje vemos conteúdos que transformam a testosterona quase em símbolo de alta performance masculina”, afirma Hermanson. Segundo ele, redes sociais e publicidade digital ampliaram a associação entre testosterona, sucesso físico, disposição e masculinidade.

A pesquisa identificou ainda a oferta de “microdoses” de testosterona em quase 12% dos sites avaliados. “Hoje esse conceito não tem padronização científica nem reconhecimento nas principais diretrizes médicas”, diz Hermanson.

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Fertilidade e riscos pouco discutidos

Outro ponto que chamou atenção dos pesquisadores foi a baixa frequência de alertas sobre os riscos do tratamento hormonal. Menos de um terço dos sites mencionava prejuízos à fertilidade causados pela testosterona. “A testosterona exógena pode reduzir drasticamente a produção de espermatozoides e causar infertilidade”, alerta Hermanson. Segundo ele, muitos pacientes iniciam tratamento sem receber orientação adequada sobre os efeitos hormonais de longo prazo.

Além da infertilidade, o especialista cita aumento do hematócrito — quando o sangue fica mais espesso devido ao excesso de glóbulos vermelhos —, acne, piora da apneia do sono e dependência terapêutica como possíveis efeitos do uso inadequado.

O papel da IA e dos algoritmos

Os autores do estudo alertam que a disseminação dessas informações pode influenciar diretamente a procura por testosterona e moldar expectativas dos pacientes antes mesmo da consulta médica. Ainda segundo a pesquisa, o fenômeno pode ganhar outra dimensão com ferramentas de inteligência artificial e sistemas de busca cada vez mais usados para perguntas sobre saúde. Isso porque plataformas de IA costumam se alimentar justamente do conteúdo disponível online — incluindo páginas com informações sem respaldo científico.

“Quando a informação é distorcida ou simplificada, ela pode influenciar diretamente decisões médicas e aumentar a pressão por prescrições hormonais inadequadas”, diz Hermanson. Para ele, há necessidade de maior fiscalização sobre publicidade hormonal na internet. “A testosterona é um medicamento importante, com indicações legítimas e benefícios reais quando bem utilizada. Mas ela não deve ser tratada como produto de marketing, suplemento de bem-estar ou promessa de rejuvenescimento.”