Cannabis medicinal não mostra eficácia contra ansiedade e depressão, aponta revisão histórica
Uma revisão abrangente publicada nesta segunda-feira, 16 de março de 2026, na prestigiada revista científica The Lancet, revelou que não existem evidências consistentes de que a cannabis medicinal seja eficaz no tratamento da ansiedade, depressão ou transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). A pesquisa, descrita como a maior análise já realizada sobre segurança e eficácia desses compostos em condições de saúde mental, foi conduzida por cientistas da Universidade de Sydney, vinculados ao The Matilda Centre, especializado em prevenção e tratamento de transtornos mentais.
Metodologia rigorosa analisa 45 anos de estudos
Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores analisaram 54 estudos realizados em diversos países entre 1980 e 2025. Esses estudos comparavam o uso de medicamentos derivados da cannabis – principalmente formulações com canabidiol (CBD) e tetrahidrocanabinol (THC) – com outros tratamentos ou placebo. Os produtos terapêuticos, administrados em formas como óleos, cápsulas ou soluções orais, possuem concentrações controladas e diferem da cannabis recreativa, que permanece ilegal no Brasil.
Ao reunir e comparar todos os resultados disponíveis, a equipe concluiu que não há suporte científico para a eficácia desses produtos no tratamento dos transtornos psiquiátricos mencionados. “É possível que o uso disseminado de cannabis medicinal esteja causando mais danos do que benefícios”, afirmou o pesquisador Jack Wilson, principal autor do estudo. Entre os riscos identificados estão:
- Aumento de sintomas psicóticos
- Desenvolvimento de dependência de cannabis
- Atraso no início de tratamentos com eficácia já comprovada
Benefícios limitados e evidências frágeis
Apesar da ausência de evidências para transtornos psiquiátricos comuns, a revisão identificou sinais de benefício em algumas outras condições, embora com qualidade limitada de evidência. Entre os possíveis usos investigados estão:
- Tratamento da dependência de cannabis
- Insônia
- Tiques e síndrome de Tourette
- Sintomas associados ao autismo
Mesmo nesses cenários, os autores alertam que os resultados ainda são frágeis. “A qualidade geral das evidências para condições como autismo e insônia foi baixa. Sem acompanhamento médico ou suporte psicológico adequado, o uso de cannabis medicinal nesses casos raramente se justifica”, destacou Wilson. O pesquisador também ressaltou que o transtorno do espectro autista apresenta manifestações muito variadas entre os indivíduos, exigindo cautela na interpretação dos resultados.
Evidências mais sólidas fora da psiquiatria
Os pesquisadores destacam que existem indicações médicas para as quais os derivados da cannabis apresentam evidências mais consistentes, fora do campo da psiquiatria. Entre elas estão:
- Redução de crises epilépticas em alguns tipos de epilepsia
- Controle de espasticidade em pessoas com esclerose múltipla
- Manejo de certos tipos de dor crônica
Nesses casos, medicamentos à base de canabinoides já são utilizados em diferentes sistemas de saúde, com respaldo científico mais robusto.
Contexto regulatório em expansão
O estudo chega em um momento de rápida expansão do mercado de cannabis medicinal globalmente. Na Austrália, as vendas desses produtos triplicaram nos últimos quatro anos, com mais de um milhão de prescrições aprovadas nesse período. Estima-se que mais de 700 mil australianos já tenham utilizado cannabis medicinal para tratar mais de 250 condições diferentes.
Em países da América do Norte, pesquisas indicam que 27% das pessoas entre 16 e 65 anos nos Estados Unidos e no Canadá já usaram cannabis com finalidade médica – e cerca de metade relatou o uso para tentar controlar problemas de saúde mental.
Cenário brasileiro e preocupações regulatórias
No Brasil, o movimento também é significativo. Desde 2019, brasileiros podem adquirir em farmácias produtos à base de CBD, principal composto terapêutico derivado da cannabis. Além disso, em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) deu uma sinalização positiva para o cultivo no país.
A importação individual, um processo mais burocrático que exige autorização prévia, segue em expansão. Em 2025, essa modalidade bateu recorde: foram concedidas 194.682 autorizações para a importação de produtos à base de cannabis, um crescimento de 16,3% em relação ao ano anterior e o maior volume desde o início da série histórica.
Esse avanço tem despertado preocupação em entidades médicas, que apontam lacunas na regulação e incertezas sobre segurança e eficácia dos produtos. Na Austrália, por exemplo, o órgão regulador de medicamentos, a Therapeutic Goods Administration (TGA), iniciou uma revisão das regras de supervisão da cannabis medicinal após receber mais de 500 contribuições públicas sobre o tema.
Para os autores, estudos como este podem ajudar médicos e autoridades sanitárias a tomar decisões baseadas em evidências. “Nossa análise oferece uma avaliação abrangente e independente dos benefícios e riscos dos medicamentos à base de cannabis”, opina Wilson. “Isso pode apoiar decisões clínicas mais informadas e ajudar a garantir que pacientes recebam tratamentos eficazes, minimizando os danos associados a produtos ineficazes ou inseguros.”
