Desembargadora que recebeu R$ 117 mil em um mês alerta para risco de 'regime de escravidão' na magistratura
A desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Pará (TJPA), gerou polêmica ao afirmar, durante uma sessão judicial, que a situação financeira da magistratura é "muito triste" e que a categoria pode, no futuro, não ter como "pagar as contas". As declarações contrastam com os dados do Portal da Transparência, que revelam que ela recebeu, em doze meses de 2025, o valor total de R$ 1.024.117,30. Em março de 2026, sua remuneração bruta foi de R$ 117.863,72, com líquido de R$ 91.211,82 após descontos.
Carreira de 40 anos e atuação no emblemático caso Eldorado do Carajás
Eva Coelho, nascida em 15 de julho de 1951, ingressou na magistratura em outubro de 1985 após concurso público e foi empossada como desembargadora em julho de 2020. Com 40 anos de carreira no Judiciário paraense, ela atuou em diversas comarcas, como Afuá, Chaves e Primavera, e mais recentemente em Belém, onde foi titular da 3ª Vara Criminal até abril de 2020. Entre 2001 e 2002, presidiu fases iniciais do julgamento do Massacre de Eldorado do Carajás, episódio que completou 30 anos em 2026 e resultou na morte de 19 trabalhadores rurais do Movimento Sem Terra (MST), além de outras duas vítimas que faleceram no hospital.
Falas polêmicas em sessão do TJPA sobre verbas indenizatórias
Durante a 8ª sessão da 3ª Turma de Direito Penal, em 9 de abril, a desembargadora se manifestou após o Supremo Tribunal Federal (STF) estabelecer critérios para o pagamento das verbas indenizatórias, conhecidas como "penduricalhos". Ela declarou: "Nós não temos direito mais a auxílio alimentação, não temos direito a receber uma gratificação por direção de foro. [...] Enfim, daqui a pouco a gente vai estar no hall daqueles funcionários que trabalham em regime de escravidão". Eva Coelho também afirmou que a categoria não está "no fundo do poço", mas sim "no fundo do alçapão", e que juízes estão sendo vistos como "vilões" ou "bandidos".
Contexto das declarações e impacto na magistratura
A magistrada destacou que colegas estão deixando de frequentar médicos ou tomar remédios devido a dificuldades financeiras, e ressaltou o volume de horas extras realizadas em casa, incluindo fins de semana. As falas ocorreram antes do julgamento de processos, em uma sessão que durou cerca de três horas. O STF, ao limitar os "penduricalhos", aprovou uma tese que detalha parcelas indenizatórias permitidas e proibidas, aguardando regulamentação pelo Congresso Nacional. Eva Coelho, que atuou na justiça eleitoral e foi membro do TRE-PA, expressou em entrevista anterior valores como empatia e ética para a magistratura. O g1 solicitou um posicionamento da desembargadora e aguarda retorno.



