O presidente da China, Xi Jinping, afirmou nesta quinta-feira que Pequim e Washington precisam atuar como “parceiros, não rivais”, ao abrir uma aguardada cúpula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Pequim. O encontro ocorre em meio à escalada da guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, ao aumento das tensões sobre Taiwan e à disputa econômica e tecnológica entre as duas maiores potências do planeta.
Diálogo de alto nível no Grande Salão do Povo
Sentados frente a frente no Grande Salão do Povo, Xi defendeu a criação de “um novo paradigma” para as relações entre grandes potências e afirmou que os dois países deveriam “ajudar um ao outro a ter sucesso”. Trump respondeu em tom conciliador. Disse que a relação bilateral “será melhor do que nunca” e elogiou Xi como “um grande líder”, enquanto destacava a presença de alguns dos empresários mais poderosos dos Estados Unidos na delegação americana.
A visita marca uma tentativa de estabilização da relação entre Washington e Pequim após anos de guerra comercial, sanções tecnológicas, restrições sobre semicondutores e disputas geopolíticas crescentes no Indo-Pacífico.
Guerra no Irã domina bastidores da reunião
Apesar do tom diplomático, a cúpula acontece sob forte pressão da crise no Oriente Médio. O governo americano busca apoio chinês para pressionar Teerã a aceitar negociações que permitam aliviar a crise no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. A China é hoje a principal compradora de petróleo iraniano e mantém relação estratégica com Teerã.
Washington avalia que Pequim pode desempenhar um papel decisivo para reduzir o risco de um colapso prolongado no fluxo energético mundial. A crise já provocou disparada dos preços do petróleo e levou a Agência Internacional de Energia a alertar para um déficit histórico de oferta de petróleo em 2026.
Taiwan vira principal foco de apreensão na Ásia
Nos bastidores, aliados dos Estados Unidos na Ásia acompanham a reunião com apreensão. Segundo analistas ouvidos pelo Financial Times, governos de Taiwan, Japão e Filipinas temem que Trump aceite suavizar o apoio militar americano à ilha em troca de avanços diplomáticos ou comerciais com Pequim. A China considera Taiwan parte de seu território e não descarta o uso da força para retomar o controle da ilha.
Já os Estados Unidos mantêm apoio militar e político a Taipé, embora reconheçam oficialmente a política de “uma só China”. Especialistas afirmam que a guerra no Oriente Médio também reduziu temporariamente o foco militar americano na Ásia, ampliando a preocupação regional.
Terras raras e tecnologia seguem no centro da disputa
Outro eixo central das negociações envolve minerais estratégicos e tecnologia. A China ampliou nos últimos meses restrições à exportação de terras raras, fundamentais para setores como defesa, carros elétricos, semicondutores e inteligência artificial. As restrições já afetam cadeias industriais nos Estados Unidos, Europa e Índia.
Trump também pretende pressionar Pequim a ampliar a abertura para empresas americanas. O presidente afirmou antes da viagem que sua “primeira exigência” seria melhorar o ambiente de negócios para companhias dos EUA na China. A delegação empresarial levada a Pequim reflete o peso econômico da visita. Estão presentes nomes como Tim Cook, da Apple, Jensen Huang, da NVIDIA, Elon Musk, da Tesla, além de executivos do setor financeiro americano.
Diplomacia sob desconfiança
Apesar do discurso amigável, analistas veem poucas chances de mudanças estruturais imediatas na relação bilateral. Persistem divergências profundas sobre comércio, segurança, tecnologia, sanções, cadeias industriais e influência geopolítica. Nos Estados Unidos, Trump tenta demonstrar capacidade de negociação em meio a um cenário internacional cada vez mais instável e ao impacto econômico da guerra com o Irã.
Já Xi busca reforçar a imagem da China como potência indispensável para a estabilidade econômica e diplomática mundial. A reunião em Pequim ocorre justamente no momento em que a rivalidade entre as duas potências entra em uma nova fase: menos centrada apenas em tarifas e comércio e cada vez mais ligada a energia, segurança militar, inteligência artificial e controle de cadeias estratégicas.



