Governo Lula avalia mudança na postura dos EUA diante das eleições brasileiras
A percepção do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre como a Casa Branca deve se comportar diante das eleições brasileiras sofreu uma transformação significativa. Neste momento, diplomatas e assessores próximos ao Palácio do Planalto avaliam que, diante da estabilidade observada na relação entre Lula e o presidente americano Donald Trump, a tendência é de que não haja tentativas explícitas de influência no processo eleitoral brasileiro.
Mais do que isso, as fontes governamentais acreditam que não ocorrerá um movimento aberto para apoiar um candidato específico do campo da direita. Essa avaliação otimista, no entanto, é temperada por uma dose considerável de cautela.
Cautela persiste diante da volatilidade de Trump
No entorno de Lula, permanece o entendimento claro de que o presidente americano tem como característica marcante ser volúvel e imprevisível em suas decisões. Essa natureza obriga o Brasil a não baixar a guarda e a atuar de forma estratégica e contínua para preservar a proximidade recentemente construída entre os dois mandatários.
“Acho que a tendência até a eleição é de uma postura mais recatada do lado do Executivo americano”, afirmou uma fonte governamental que acompanha de perto as tratativas com a Casa Branca. Essa postura recatada, porém, não é vista como garantia absoluta, mas sim como uma janela de oportunidade que precisa ser mantida através de esforços diplomáticos.
Relação pessoal como fator de blindagem
Diplomatas brasileiros atribuem a redução do risco de interferência estrangeira justamente à relação pessoal construída nos últimos meses entre Lula e Trump. Essas fontes citam especificamente a forma cortês — e, em alguns momentos, até carinhosa — com que o presidente americano tem tratado o líder petista em encontros e comunicações.
Na avaliação desses especialistas em relações internacionais, a boa relação pessoal funciona como um fator de blindagem importante, mesmo diante de possíveis pressões internas e externas para que a Casa Branca favoreça uma candidatura de direita no Brasil. Essa blindagem é considerada particularmente valiosa em um contexto geopolítico complexo.
Do tarifaço às zonas de influência: a evolução da desconfiança
Quando o chamado tarifaço de Trump foi imposto ao Brasil em julho do ano passado, ministros e diplomatas brasileiros interpretaram a decisão como uma tentativa clara de forçar uma mudança de regime no país. Na época, acreditava-se que o objetivo seria reabilitar o ex-presidente Jair Bolsonaro ou desgastar o governo Lula em ano pré-eleitoral.
Mesmo após Washington relaxar as tarifas e recuar na aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes no fim do ano passado, persistia no entorno de Lula uma desconfiança profunda. Havia o temor de que, mais adiante, a gestão Trump voltaria a agir para favorecer um candidato direitista mais alinhado às posições da Casa Branca.
Em dezembro, essa preocupação ganhou contornos mais definidos quando o Departamento de Estado dos Estados Unidos divulgou sua nova doutrina de segurança nacional. O documento prevê um mundo organizado por zonas de influência, com a América Latina explicitamente subordinada aos interesses de Washington.
Nessa configuração geopolítica, os EUA passam a se atribuir o direito de interferir em processos internos de qualquer país inserido em sua área de influência. Um diplomata próximo ao governo brasileiro resumiu a preocupação na época: “Os americanos querem uma zona de influência totalmente subordinada. Não podemos achar que todas as nossas preocupações se dissiparam.”
Estratégia brasileira: proximidade como vacina política
Daqui até as eleições, o esforço da diplomacia brasileira será manter a proximidade com a Casa Branca como uma espécie de vacina contra movimentos da oposição bolsonarista. Nesse sentido, o governo tem insistido na necessidade de tirar do papel ações concretas de cooperação com os Estados Unidos, particularmente no combate ao crime organizado.
A ênfase neste tema tem relação direta com o cenário eleitoral que se desenha. O Palácio do Planalto prevê que a segurança pública será um debate central no pleito e que a oposição tentará desgastar Lula com esse assunto sensível para os brasileiros.
Discutir o tema diretamente com Trump, portanto, é visto como uma forma estratégica de tentar neutralizar ações da oposição — sobretudo do grupo ligado ao senador Flávio Bolsonaro, provável candidato do campo da direita. A relação pessoal entre os presidentes, construída em encontros como o ocorrido na Malásia durante a 47ª Cúpula da ASEAN, torna-se assim um ativo diplomático que o Brasil busca preservar e fortalecer nos meses que antecedem as eleições.