O temor de uma intervenção militar dos Estados Unidos no território brasileiro, que ganhou força após a operação que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro, foi classificado como um mito infundado pelo especialista em Direito Internacional Alexandre Teixeira. Em entrevista ao programa Ponto de Vista, apresentado por Laísa Dall’Agnol, o doutor analisou os dados de uma pesquisa da Quaest e a conjuntura geopolítica para desconstruir a apreensão que atinge parte da população.
Pesquisa revela apoio e medo na população brasileira
Os números da pesquisa Quaest, citados por Teixeira, mostram um cenário aparentemente contraditório na opinião pública. Por um lado, 46% dos brasileiros apoiam a ação militar americana na Venezuela. Por outro, um percentual ainda maior, de 58%, demonstra receio de que uma operação semelhante possa ser realizada no Brasil.
Para o especialista, esse medo não encontra respaldo na realidade política e militar atual. “Eu não acredito que exista essa possibilidade. É um mito que está pairando na nossa sociedade. Neste momento, não vejo o Brasil como alvo de uma operação militar americana”, afirmou Teixeira durante a entrevista, que aconteceu em 15 de janeiro de 2026.
Análise da ação na Venezuela e a postura do Brasil
Alexandre Teixeira avaliou que a captura de Maduro faz parte da agenda geopolítica individualista do presidente dos EUA, Donald Trump. A justificativa jurídica foi o combate ao narcotráfico, mas, segundo o doutor, interesses econômicos, como o controle do petróleo venezuelano, também estiveram em jogo.
Sobre a posição brasileira, o especialista foi enfático ao defender a neutralidade. Ele reiterou que a tradição diplomática do país é de buscar soluções pacíficas e de não interferência direta em crises externas que não o afetem imediatamente. “É a tradição do Brasil: não se envolver em crises externas que não dizem respeito diretamente ao país. Não devemos tomar partido, como mostra claramente a opinião da sociedade brasileira”, concluiu.
Teixeira também comentou que a condenação da operação pelo presidente Lula era esperada, mas a tendência é que o governo mantenha uma postura de cautela e não intervenção.
O futuro da Venezuela e o cenário geopolítico
Olhando para o futuro do país vizinho, o especialista previu um processo gradual e complexo de estabilização. A captura de Maduro enfraqueceu seu regime, mas questões políticas e econômicas profundas permanecem. A colaboração com o governo interino de Delcy Rodríguez, alinhado aos EUA, pode abrir caminhos, mas a situação dos direitos humanos segue delicada.
Teixeira também abordou as tensões regionais, citando a aproximação entre Trump e o presidente colombiano, Gustavo Petro, como um exemplo de que, por trás de retóricas agressivas, a diplomacia busca negociações. No panorama global, ele alertou para os riscos da competição entre EUA, Rússia e China, mas manteve a convicção de que, no caso do Brasil e da Venezuela, a via diplomática deve prevalecer sobre qualquer aventura militar.