O Banco Central do Brasil, mesmo após conquistar sua autonomia financeira, prepara mais uma transferência de recursos do Tesouro Nacional para cobrir um rombo bilionário. Os dados de 2025 revelam um cenário fiscal complexo, que resgata discussões sobre a gestão econômica em períodos eleitorais.
Os Números do Prejuízo do Banco Central
De janeiro a novembro de 2025, as contas do BC apresentaram um déficit de R$ 156,411 bilhões. A situação exigirá o consumo das reservas de lucro acumuladas, que foram de R$ 270,942 bilhões em 2024, e novo apoio financeiro do Tesouro. O Conselho Monetário Nacional deve examinar os dados de dezembro no dia 22 de janeiro de 2026.
O ano já começou mal para a autoridade monetária. Em janeiro de 2025, as perdas somaram R$ 10,232 bilhões em juros e impressionantes R$ 60,569 bilhões em operações de swap. A queda abrupta do dólar, intensificada pelo impacto dos anúncios tarifários de Donald Trump em sua posse em 20 de janeiro, pegou o BC de surpresa. Perdas adicionais de R$ 2,864 bilhões nas reservas em moeda estrangeira completaram o cenário negativo do mês.
Estratégias de Contenção e a Diversificação para Ouro
Em resposta às turbulências, o Banco Central iniciou uma movimentação estratégica: aumentar suas posições em ouro. A medida deu resultado imediato, com ganhos de R$ 944 milhões já em janeiro de 2025. Essa diversificação foi intensificada ao longo do ano.
No primeiro semestre, as perdas totais foram de R$ 117,952 bilhões, compostas principalmente por juros (-R$ 67,752 bi) e derivativos cambiais (-R$ 51,638 bi). A desvalorização das reservas gerou perda de R$ 6,789 bilhões, mas as transações com ouro renderam R$ 7,465 bilhões, atenuando o prejuízo.
A aposta no metal precioso se mostrou acertada no acumulado do ano. Até novembro, as operações com ouro acumularam um ganho de R$ 28,210 bilhões, compensando as perdas de R$ 6,609 bilhões das reservas em moedas estrangeiras. No entanto, os prejuízos com swaps (-R$ 34,525 bi) e, principalmente, com juros (-R$ 144,169 bi), levaram ao resultado negativo de R$ 156,411 bilhões em onze meses.
O Espectro do Fiscalismo Eleitoral: 2022 vs. 2026
A reportagem traça um paralelo entre as estratégias fiscais adotadas em anos eleitorais. Em 2022, na corrida pela reeleição, o governo Jair Bolsonaro, com Paulo Guedes à frente da Economia, adotou uma série de medidas para conquistar apoio popular.
O valor do Abono Emergencial foi dobrado para R$ 600 e estendido a solteiros, enquanto caminhoneiros autônomos e taxistas receberam uma "mesada" de R$ 1 mil de julho a dezembro. Para conter a inflação, que superava 12% ao ano, o governo cortou impostos federais e estaduais sobre combustíveis, energia e comunicações. Apesar das medidas, a inflação fechou em 5,79%, acima do teto de 5,00%, e Bolsonaro não foi reeleito.
O governo Lula, por sua vez, herdou e precisou recompor programas sociais e pagar mais de R$ 150 bilhões em precatórios que haviam sido contingenciados. Agora, em janeiro de 2026, a nove meses da eleição, o presidente sancionou o Orçamento Geral da União com despesas de R$ 6,54 trilhões, mas vetou R$ 400 milhões em emendas parlamentares consideradas irregulares.
O contingenciamento de R$ 11 bilhões foi necessário para cumprir as regras fiscais. Entre as prioridades mantidas estão o Bolsa Família e o Programa Pé de Meia, mas programas de irrigação no Nordeste e obras em estados como Amapá, Tocantins, Ceará, Paraíba, Bahia, São Paulo, Goiás, Distrito Federal, Rondônia e Pernambuco serão adiados.
O corte em estados governados pela oposição, como Goiás e São Paulo, e em bases eleitorais importantes do Nordeste, indica que a responsabilidade fiscal falou mais alto nesta reta final pré-eleitoral, em um contraste marcante com a estratégia de 2022.