Guerra no Irã vira campo de batalha ideológico no Brasil, aponta análise do Observatório Lupa
Guerra no Irã vira campo de batalha ideológico no Brasil

Conflito no Oriente Médio se transforma em guerra de narrativas no cenário político brasileiro

Uma análise detalhada do Observatório Lupa, núcleo de pesquisa da Agência Lupa, demonstra como a guerra no Irã, que completa um mês neste sábado, 28 de março de 2026, foi rapidamente absorvida pela polarização política que caracteriza o Brasil. O conflito que ocorre a milhares de quilômetros de distância se tornou mais um ponto de intensa disputa entre os campos ideológicos da direita e da esquerda, cada qual tentando impor sua própria interpretação sobre as origens e consequências dos eventos no Oriente Médio.

Terreno fértil para especulação e desinformação

Os pesquisadores destacam que a escassez de informações confiáveis sobre aspectos cruciais da guerra, como o número preciso de feridos e vítimas, cria um ambiente propício para a especulação e a disseminação de conteúdos manipulados. Beatriz Farrugia, analista do Observatório Lupa, explica: "Conflitos internacionais como esse rapidamente se transformam em guerras de informação. Mesmo ocorrendo em outro continente, a guerra passa a ser interpretada a partir das divisões políticas brasileiras, o que favorece a nacionalização do conflito e a circulação de versões divergentes sobre os acontecimentos."

O estudo monitorou o ambiente digital brasileiro através da ferramenta Meltwater, abrangendo publicações em doze redes sociais, incluindo X, YouTube, BlueSky, Threads e Instagram, além de sites e blogs especializados. A análise revelou padrões distintos de abordagem conforme a orientação ideológica.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Estratégias narrativas da direita e da esquerda

No campo da direita, predomina o apoio às ações lideradas pelos Estados Unidos, justificadas pela violência atribuída ao regime iraniano. Algumas publicações adotam táticas mais agressivas, tentando vincular o governo do presidente Lula (PT) a grupos considerados terroristas através do uso de imagens fora de contexto. Um exemplo citado é uma fotografia que mostra o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) próximo a um dos líderes do Hamas. A imagem, no entanto, foi registrada em julho de 2024, quando Alckmin representou o governo brasileiro na cerimônia de posse do presidente iraniano. Não há qualquer evidência de interação entre ele e Ismail Haniyeh, que faleceu poucas horas após o evento.

Já a esquerda brasileira tende a associar a guerra aos interesses políticos do premiê israelense Benjamin Netanyahu e do presidente norte-americano Donald Trump, sugerindo que este estaria tentando mascarar seu envolvimento com o caso Epstein. Outra estratégia comum neste campo é a utilização de imagens e vídeos impactantes para criticar a ofensiva militar, buscando sensibilizar o público quanto aos custos humanos do conflito.

Impacto da inteligência artificial na desinformação

O relatório do Observatório Lupa alerta para o crescente uso de imagens fabricadas por inteligência artificial, que são empregadas para reforçar narrativas específicas e dificultar a distinção entre fato e ficção. Essa prática amplifica os desafios já existentes na cobertura de conflitos internacionais, onde a verificação de informações se torna cada vez mais complexa.

A pesquisa conclui que a guerra no Irã exemplifica como eventos globais são apropriados por dinâmicas políticas domésticas, transformando-se em instrumentos de disputa ideológica. Esse fenômeno não apenas distorce a compreensão pública do conflito, mas também contribui para a fragmentação do debate político no Brasil, onde cada facção busca moldar a percepção da realidade conforme suas crenças e agendas.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar