De Neymar a detergente: como a polarização política domina o Brasil
Como a polarização política contamina até temas banais no Brasil

A polarização política no Brasil atingiu um ponto crítico, contaminando até mesmo os assuntos mais banais do cotidiano. Um exemplo recente é a convocação do atacante Neymar para a seleção brasileira. A cinco dias do anúncio oficial, o Centro de Estudos Aplicados de Marketing da ESPM-SP entrevistou 400 torcedores, dividindo-os por ideologia. Entre os autodeclarados de direita, 66% apoiaram a convocação, enquanto 24% foram contra. Já entre os esquerdistas, 40% se opuseram e 37% apoiaram. Um levantamento anterior da Genial/Quaest mostrou que metade dos lulistas era contra a presença de Neymar, enquanto 57% dos bolsonaristas eram a favor.

Esse fenômeno não se restringe ao futebol. A recente decisão da Anvisa de recolher lotes do detergente Ypê por contaminação se transformou em um bizarre embate político. Militantes de direita, inflamados por políticos, acusaram o governo Lula de perseguir a fabricante, cujos proprietários doaram para a campanha de Jair Bolsonaro em 2022. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, gravou um vídeo lavando louça com o produto, enquanto o senador Cleitinho questionou se a Anvisa fiscalizaria até as buchas. Um influenciador viralizou ao simular beber o detergente, que na verdade era iogurte, mas o vídeo foi usado como prova de perseguição política.

Raízes da polarização

A divisão extremada começou a se intensificar em 2014, com o antipetismo crescendo após denúncias de corrupção na Petrobras. A eleição de Bolsonaro em 2018 consolidou a cisão. Segundo o cientista político Rafael Favetti, a polarização faz com que as pessoas organizem sua identidade e valores com base em um político ou partido. Uma pesquisa do Edelman Trust Barometer revela que 72% dos brasileiros têm mentalidade insular, ignorando fatos que contradizem suas convicções. Os políticos exploram isso, usando temas emocionais para iniciar disputas, como no caso de Neymar.

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Impactos na sociedade

O Brasil foi classificado como o quarto país mais polarizado do mundo em 2025, atrás apenas de Mianmar, Turquia e Polônia, segundo a Our World in Data. As redes sociais amplificam o conflito, com algoritmos priorizando postagens que geram discórdia. Isso cria uma guerra cultural que patrulha comportamentos e empresas. A Havaianas sofreu boicote de bolsonaristas após uma propaganda que não usou a expressão "pé direito". A rede Havan, de Luciano Hang, apoiador de Bolsonaro, teve lojas depredadas por grupos de esquerda.

No mundo artístico, o cantor Zezé Di Camargo pediu a suspensão de seu programa no SBT por causa da visita do presidente Lula à emissora. A banda Ira! teve uma turnê cancelada após o vocalista Nasi criticar defensores da anistia para os envolvidos nos atos de 8 de janeiro. Até o presidente do TST, Luiz Vieira de Mello Filho, causou polêmica ao classificar ministros como "vermelhos" e "azuis" conforme seu ativismo trabalhista.

Riscos para a democracia

Especialistas alertam que a polarização excessiva pode levar à erosão democrática. Nos Estados Unidos, 20% dos entrevistados em uma pesquisa apoiam o uso da violência por patriotas para "salvar o país". No Brasil, embora não se tenha chegado a esse ponto, é urgente resgatar debates saudáveis e respeitar opiniões diversas. A irracionalidade em discussões que vão de Neymar a detergente mostra que o país perde o rumo quando a política contamina tudo.

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