Unilever denuncia Ypê por contaminação bacteriana em produtos de limpeza
A multinacional anglo-holandesa Unilever, proprietária de marcas como Omo, Comfort e Cif, apresentou duas denúncias contra a concorrente Química Amparo, fabricante de Ypê e Tixan, junto à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). As queixas, ocorridas em outubro do ano passado e em março deste ano, apontam contaminação microbiológica no lava-roupas Tixan Ypê e em detergentes Ypê. Os resultados foram contestados pela empresa brasileira. A Senacon e a Anvisa não comentaram o assunto.
Investigação e interdição
Após as denúncias, a Anvisa realizou duas visitas à fábrica da Ypê em Amparo, a 130 km de São Paulo, e determinou neste mês a interrupção da produção e venda de produtos líquidos fabricados no complexo industrial, incluindo detergente, lava-roupas e desinfetante. As acusações da Unilever afirmam que testes em produtos da concorrente detectaram a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa, caracterizando uma "evidente falha das boas práticas de fabricação" e "iminente risco à saúde e segurança dos consumidores".
Posicionamento da Unilever
Procurada, a Unilever informou que realiza testes técnicos em seus produtos e, eventualmente, nos da concorrência, prática comum no setor. "A depender dos resultados, em respeito ao consumidor, as autoridades competentes são notificadas. Investigações são conduzidas exclusivamente pela autoridade", afirmou a empresa. A Química Amparo preferiu não comentar o caso.
Detalhes das denúncias
Na primeira denúncia, assinada pelo escritório Magalhães e Dias Advocacia, a Unilever contratou o laboratório americano Charles River para identificar a bactéria. O documento alerta que a Pseudomonas aeruginosa pode causar infecções na pele, trato urinário, olhos e ouvidos, com tratamento difícil devido à resistência a antibióticos. A Unilever sustenta que a Ypê já teria conhecimento do problema e iniciado recolhimento silencioso nos supermercados, levando a multinacional a investigar. "A Química Amparo, mesmo promovendo recolhimento silencioso, segue veiculando publicidade do Tixan Ypê Express contaminado", afirma a denúncia.
Na segunda denúncia, de março, a Unilever submeteu novas amostras ao laboratório Eurofins, que constatou ao menos 14 lotes contaminados pela bactéria, incluindo do detergente Ypê. Em sete desses lotes foram identificados traços de material genético de outras bactérias, como Bacillus subtilis, Klebsiella pneumoniae e Acinetobacter baumannii, muitas delas patogênicas. A Unilever solicita recall imediato e apuração da conduta da Química Amparo.
Defesa da Química Amparo
Em outubro, a Química Amparo respondeu à Senacon com surpresa e indignação. A empresa alega que não há regulamentação da Anvisa que estabeleça limites para Pseudomonas aeruginosa em saneantes, apenas em cosméticos. "A RDC 907/2024 proíbe a bactéria em cosméticos, não em saneantes. Há diferenciação óbvia, pois cosméticos ficam em contato direto com a pele por horas", argumenta. A empresa também questiona a isenção dos testes da Unilever e afirma ter contratado profissionais independentes para analisar seus produtos. A Química Amparo refuta a sugestão de recolhimento e alega que a Unilever age por interesses comerciais, já que a Ypê vem ganhando participação de mercado. A fabricante destaca que testes próprios em janeiro e fevereiro não apontaram a bactéria, e laudos do laboratório Atena em março também não indicam microorganismos patogênicos.
Histórico da Unilever
A Unilever já enfrentou problema semelhante no exterior. Em dezembro de 2022, a marca The Laundress fez recall de 8 milhões de unidades nos EUA e Canadá por contaminação bacteriana. Em abril de 2023, novo recall de 800 mil unidades por óxido de etileno, substância cancerígena. A Unilever registrou perda de € 89 milhões (cerca de R$ 512 milhões) em 2022 devido ao recall.



