O Centro de Previsão Climática (CPC) dos Estados Unidos, vinculado à agência oceânica e atmosférica norte-americana (NOAA), elevou nesta quinta-feira (14) para 82% a probabilidade de o El Niño se formar no trimestre maio-julho de 2026. A nova projeção representa um aumento em relação à discussão divulgada em abril, quando a probabilidade de formação no mesmo trimestre era de 61%. Com isso, a chance de o fenômeno persistir até o trimestre dezembro-fevereiro, no início de 2027, também foi estimada em 96%.
Condições atuais do Pacífico
No último mês, segundo o boletim, o Pacífico equatorial seguiu em condição de neutralidade, com temperaturas da superfície do mar próximas da média na porção centro-leste da bacia. O índice Niño-3.4, principal referência usada para monitorar o fenômeno, ficou em +0,4°C na semana mais recente. Os índices das regiões Niño-4, mais a oeste, e Niño-1+2, mais a leste, ficaram em +0,5°C e +1,0°C.
O que é o El Niño?
O El Niño e a La Niña são as duas fases do mesmo fenômeno climático, chamado ENOS (El Niño-Oscilação Sul). O El Niño é caracterizado pelo aquecimento maior ou igual a 0,5°C das águas do Oceano Pacífico equatorial. O fenômeno ocorre com frequência a cada dois a sete anos, tem duração média de doze meses e gera impacto direto no aumento da temperatura global. A La Niña é o oposto: um resfriamento dessas mesmas águas, com efeitos igualmente significativos, mas em direção contrária.
Ainda segundo a NOAA, apesar da neutralidade na superfície, o calor abaixo da linha d'água do Pacífico equatorial subiu pelo sexto mês seguido, com temperaturas significativamente acima da média na camada subsuperficial. Esse acúmulo de calor é um dos principais precursores da formação do El Niño, porque tende a aflorar para a superfície nas semanas seguintes.
Intensidade do pico segue como principal incógnita
Embora a confiança na formação do El Niño tenha aumentado em relação ao mês anterior, a NOAA afirmou que há incerteza substancial sobre a intensidade do pico do fenômeno. Nenhuma das categorias avaliadas pelo centro (fraco, moderado, forte ou muito forte) ultrapassa 37% de probabilidade nas projeções atuais, o que significa que nenhum cenário de intensidade pode ser tratado como mais provável do que os demais.
Segundo o boletim, os El Niños mais intensos do registro histórico têm em comum um acoplamento significativo entre oceano e atmosfera ao longo dos meses de verão no Hemisfério Norte, ou seja, uma resposta atmosférica consistente ao aquecimento do Pacífico. Esse acoplamento ainda não foi observado em 2026, e a NOAA não tem como afirmar se ocorrerá nos próximos meses.
Outros modelos internacionais, como o europeu ECMWF, chegam a projetar chances de um evento ainda mais intenso, mas a agência americana ressalta que as previsões climáticas são menos confiáveis nesta época do ano, período conhecido como "barreira de previsão de primavera" (um período em que os modelos climáticos apresentam menor confiabilidade). As projeções tendem a ganhar mais precisão a partir de junho.
“Os modelos já indicam a possibilidade de um El Niño forte a partir de maio, ganhando força ao longo do inverno. Mas ainda é cedo para falar em um ‘super El Niño’; por enquanto, esse cenário precisa de mais confirmação”, explica o meteorologista César Soares, da Climatempo.
Histórico recente de El Niños
Desde 2006, uma sequência de episódios de El Niño vem mudando cada vez mais o clima do planeta, que já está mais quente que no passado. Mesmo quando são considerados fracos ou moderados, esses eventos acontecem em um mundo aquecido e acabam aumentando o risco de extremos, como secas, enchentes e ondas de calor. Veja:
- 2006–2007: El Niño fraco a moderado.
- 2009–2010: El Niño moderado.
- 2014–2016: El Niño muito forte, ligado a recordes de calor e extremos mais frequentes.
- 2018–2019: El Niño fraco a moderado, mais curto e com impactos mais limitados.
- 2023–2024: El Niño forte, um dos mais intensos já registrados, associado a novos recordes de calor.
Possíveis impactos no Brasil
Historicamente, o El Niño altera o padrão de chuva e temperatura no país e causa:
- aumento de chuva no Sul, com risco maior de eventos extremos;
- redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste;
- mais irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste;
- maior frequência de ondas de calor.
Segundo especialistas, um dos principais efeitos esperados é o aumento de períodos prolongados de calor, especialmente na primavera e no verão. Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator por trás das mudanças no clima. Com os oceanos já mais quentes do que a média histórica, a expectativa é de que os próximos meses sigam registrando temperaturas elevadas em várias regiões do planeta.



