Papa Leão XIV cita Gandalf em encíclica sobre IA e atrai fãs de Tolkien
Papa Leão XIV cita Gandalf em encíclica sobre IA

Papa Leão XIV surpreende ao citar Gandalf em encíclica sobre inteligência artificial

Não se esperava grandes revelações na encíclica Magnífica Humanidade, a primeira do Papa Leão XIV, que aborda o tema mais central da atualidade: a inteligência artificial. Além de reiterar o óbvio, que a tecnologia deve servir à humanidade e não o contrário, o documento não representa uma obra que realinhe o pensamento da Igreja. No entanto, a encíclica provocou furor em um segmento bem específico da opinião pública: os admiradores da trilogia O Senhor dos Anéis, a incrivelmente complexa e apaixonante obra do gênero de alta fantasia.

O pontífice entrou no universo LOTR, como os íntimos chamam esse mundo único, ao incluir na encíclica uma frase de Gandalf, o mago que reúne diferentes espécies – de hobbits a humanos, de elfos a anões – para salvar o mundo da expansão maligna de Sauron, destruindo o último dos anéis mágicos que lhe daria poder absoluto. A frase, atribuída a “um personagem” de Tolkien, diz: “Não nos cabe dominar todas as marés do mundo, mas fazer o que está ao nosso alcance para socorrer os anos em que fomos colocados, arrancando o mal dos campos que conhecemos, para que aqueles que vierem depois possam ter uma terra limpa para cultivar”. Embora não seja uma das citações mais empolgantes, a analogia com o momento histórico em que parecemos prestes a ser engolidos por nossas próprias invenções é clara.

O papa e os fãs de Tolkien: um encontro inesperado

O papa americano certamente compreende o significado de inserir um personagem de ficção como Gandalf em uma obra que será dissecada por teólogos e filósofos do mundo inteiro. Estaria ele fazendo um apelo à cultura pop ou é realmente um admirador do escritor inglês, um católico praticante que incorporou muito do pensamento cristão em sua obra? Curiosamente, o papa, que poderia ser descrito como alguém de moderada tendência à centro-esquerda, à la Igreja contemporânea, adentrou uma esfera ocupada, em geral, pela direita.

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Não é difícil entender o motivo: O Senhor dos Anéis atrai corações conservadores com sua luta entre o bem e o mal (ninguém nessa ala imagina que Sauron tenha um trauma de infância a ser curado em sessões de terapia), o culto ao passado e valores tradicionais, como a sociedade agrária dos modestos hobbits. Sem falar no desapego, dedicação ao bem comum e os mais extremos sacrifícios em favor de princípios superiores. Quem não entende esse mundo fascinante considera os fãs de O Senhor dos Anéis como um bando de nerds, adultos infantilizados por histórias que não podem ser contadas com graça numa mesa de bar. Quem se deixou seduzir, dificilmente as esquece.

Líderes conservadores e a influência de Tolkien

A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, por exemplo, chegou a frequentar “acampamentos de hobbits”, vestida a caráter. Em sua autobiografia, que a catapultou do nicho de extrema-direita à chefia de governo, abandonando radicalismos pelo caminho, ela cita dois personagens guerreiros, Faramir e Aragorn, para exemplificar a defesa da pátria e das tradições. Aragorn, o herói humano da Sociedade do Anel, também foi copiado por Santiago Abascal, líder do partido Vox da Espanha. Ele produziu um filme cavalgando com partidários, com a trilha sonora do filme, provocando uma hilária reação do ator dinamarquês Viggo Mortensen, intérprete de Aragorn, que reclamou do uso “ignorante” da imagem do personagem, um “estadista poliglota” que promove a inclusão de diversas raças.

Seria de dar risada se os membros da tribo LOTR não levassem tudo tão a sério. É o que faz o mais conhecido deles, o vice-presidente americano JD Vance. “Eu não percebia na época, mas muito da minha visão conservadora do mundo veio de Tolkien”, declarou. Vance, que teve uma infância miserável, com a mãe viciada em drogas, assistiu aos filmes da trilogia de Peter Jackson no ensino médio. É possível que sua admiração pelo escritor tenha influenciado sua conversão ao catolicismo na vida adulta. Agora, como vice de Donald Trump, teve alguns entreveros com o papa americano por visões divergentes sobre o tratamento a imigrantes.

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Vance deu o nome de Narya, um dos anéis mágicos, à empresa de capital de risco que abriu, seguindo o exemplo de seu mentor, o superinvestidor Peter Thiel, que já teve a gestora de capitais Mithril (a malha de metal inexpugnável que salva a vida do hobbit Frodo) e hoje comanda a gigantesca Palantir (pedras mágicas que permitem ver todos os acontecimentos do mundo), fornecedora do Pentágono.

O alerta da encíclica e o espírito humano

O fato de a inteligência artificial já estar tornando realidade muitas das invenções de Tolkien só aumenta nossa admiração pelo espírito humano, que cria obras fenomenais como O Senhor dos Anéis e agora nos coloca dentro de uma nova e perturbadora era. “Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. Sobre cada época, porém, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto”, alerta a nova encíclica. Iremos, como Gandalf, “fazer o que está ao nosso alcance”?