Em meio à demora na apuração dos votos, o chefe do órgão responsável pelo processo eleitoral no Peru renunciou, ampliando a crise política no país. O Júri Nacional de Eleições (JNE) informou que os resultados finais devem ser anunciados a partir de 15 de maio. A única candidata já garantida no segundo turno é Keiko Fujimori. A disputa pela segunda vaga está acirrada entre o esquerdista Roberto Sánchez e o ultraconservador Rafael López Aliaga, separados por cerca de 14 mil a 15 mil votos, com aproximadamente 94% das urnas apuradas.
Por que a apuração está demorando?
Um número elevado de atas restantes apresenta irregularidades e precisa ser examinado por juízes eleitorais. O problema envolve quase um milhão de votos distribuídos em 5.143 atas, segundo a autoridade eleitoral. Esses documentos são revisados individualmente, e cada ata leva cerca de três dias para ser analisada, conforme declarou à AFP Yessica Clavijo, secretária-geral do JNE. A complexidade aumentou porque os eleitores votaram simultaneamente em cinco eleições diferentes, multiplicando o volume de dados a conferir.
Especialistas apontam que, em disputas apertadas, é comum que partidos apresentem contestações em massa, inclusive em regiões onde tiveram menos votos, como estratégia para atrasar a apuração e tentar reverter resultados. O cientista político Fernando Tuesta explicou à AFP que o objetivo das impugnações em massa é tirar votos do adversário e alongar o processo. As atas podem ser contestadas por erros como inconsistências numéricas ou dados incompletos, algo comum em uma votação recorde com 35 candidatos e cinco eleições simultâneas. Quando as anomalias não podem ser corrigidas, a lei prevê recontagem de votos em vez de anulação das atas.
Irregularidades e suspeitas
O processo eleitoral também foi marcado por falhas logísticas e episódios que aumentaram a desconfiança pública. Houve atraso na entrega de materiais eleitorais, impedindo cerca de 50 mil pessoas de votar no dia oficial e forçando a extensão da votação por mais 24 horas, uma medida inédita no país. Além disso, aproximadamente 1.200 cédulas foram encontradas em um contêiner de lixo em Lima, levando o Ministério Público a abrir investigações e realizar buscas em instalações do órgão responsável pelas eleições. Apesar das denúncias, missões internacionais de observação, como a da União Europeia, afirmaram não haver provas concretas de fraude, embora tenham apontado “falhas graves” no processo.
Chefe eleitoral renuncia em meio à crise
A pressão política culminou na renúncia de Piero Corvetto, chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE), responsável pela organização da votação. Ele deixou o cargo pouco antes de prestar depoimento ao Ministério Público sobre as irregularidades registradas no primeiro turno. Em carta, Corvetto afirmou que sua saída busca garantir maior confiança pública no processo eleitoral antes do segundo turno, classificando os problemas como “técnicos e operacionais”, especialmente na distribuição de materiais em Lima. A renúncia foi recebida de forma divergente pelos principais grupos políticos: aliados de Fujimori comemoraram, partidos ligados a Sánchez criticaram a tentativa de criar uma narrativa de fraude, e aliados de López Aliaga reforçaram acusações de falta de transparência.
Sem provas de fraude, mas com tensão crescente
Apesar das acusações, não há evidências objetivas de fraude eleitoral até o momento. López Aliaga chegou a pedir a anulação do pleito, hipótese considerada improvável pela legislação peruana, que só permite anulação em casos extremos, quando votos inválidos superam dois terços do total. A crise ocorre em um contexto de instabilidade política crônica no Peru, que teve oito presidentes em apenas dez anos, contribuindo para a desconfiança nas instituições.
Dois ministros renunciam e ampliam crise política
Em meio à demora na apuração, a crise política ganhou novos capítulos com a renúncia de integrantes do governo. O ministro da Defesa, Carlos Díaz, deixou o cargo após a decisão do presidente interino, José Balcázar, de adiar a compra de caças F-16 dos Estados Unidos. A saída de membros do alto escalão, somada à indefinição eleitoral, amplia a instabilidade no país às vésperas da definição do segundo turno.



