Disputa histórica: ES e SC brigam por título de primeira cidade colonizada por italianos no Brasil
Duas cidades brasileiras estão envolvidas em uma acirrada disputa por um título nacional simbólico, mas carregado de significado histórico: o de primeira cidade colonizada por imigrantes italianos no país. De um lado, Santa Teresa, localizada na Região Serrana do Espírito Santo, luta para manter o reconhecimento como município Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil. Do outro, São João Batista, em Santa Catarina, busca ser declarada a Capital Nacional do mesmo movimento migratório.
Projeto de lei reacende polêmica na Câmara dos Deputados
A discussão, que não é nova, ganhou novos contornos neste mês com a tramitação do Projeto de Lei 9.811/2018 na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados. A proposta, apresentada pelo deputado Rogério Peninha Mendonça (PMDB-SC), visa revogar a Lei nº 13.617 de 2018, que concedeu o título a Santa Teresa, com o objetivo declarado de corrigir um erro histórico. O parlamentar catarinense argumenta que obras clássicas da historiografia atestam a chegada dos primeiros imigrantes italianos ao estado do Sul já em 1836, além de citar uma manifestação contrária da Província de Trento, na Itália, em relação à concessão do título ao município capixaba.
Com o avanço do projeto, parlamentares do Espírito Santo se posicionaram contra a medida, recebendo apoio do prefeito de Santa Teresa, Kleber Medice (PSDB). O gestor municipal viajou a Brasília no final de março para defender a verdade histórica e a memória capixaba, entregando documentos ao presidente da CCJC, deputado Leur Lomanto Júnior (União), que, segundo ele, comprovam o pioneirismo de Santa Teresa. Para que a proposta de Santa Catarina prossiga, depende de votação na Câmara, mas ainda não há data definida para tal.
Argumentos históricos de ambos os lados
Os defensores de Santa Catarina baseiam-se no livro Italianos no Brasil 'Andiamo in Merica', de Franco Cenni, que menciona a chegada de 180 imigrantes sardos ao estado em 1836, através do agente consular Enrico Shutel. Já Santa Teresa sustenta seu título com base em marcos históricos de 1874 e 1875, quando os navios La Sofia e Rivadávia trouxeram centenas de italianos para o Espírito Santo, iniciando uma imigração em massa e organizada. Conforme o sociólogo italiano Renzo M. Grosselli, foi a chegada do Rivadávia em 31 de maio de 1875, com 150 famílias, que resultou na fundação de Santa Teresa em junho daquele ano.
Em voto contrário ao projeto catarinense, o deputado Gilson Daniel cita uma manifestação do Comitê dos Italianos no Exterior do Espírito Santo e Rio de Janeiro, que ressalta que o reconhecimento a Santa Teresa não se refere a presenças isoladas, mas ao início da imigração italiana em massa, organizada e contínua, caracterizando o fenômeno migratório moderno.
Posicionamento das cidades e impacto cultural
A Prefeitura de São João Batista informou que apoia o movimento Non si può negare la storia, la vera storia!, liderado pela Associação dos Descendentes e Amigos do Núcleo Pioneiro da Imigração Italiana no Brasil (Adanpib), que busca reconhecer a Colônia Nova Itália como berço da imigração italiana. Fundada em março de 1836 por 132 imigrantes da Ligúria, a localidade já possui reconhecimento estadual através da Lei nº 17.536 de 2018.
Em Santa Teresa, a influência italiana é marcante: segundo o Consulado Italiano no Brasil, 90% da população de 22.808 habitantes é descendente de italianos, com origens em Trento, Veneto e Lombardia. Essa herança se reflete na arquitetura, gastronomia, produção de vinhos e eventos culturais, impulsionando o turismo na região. Moradores como Osmar Balista, descendente de italianos e proprietário de pousadas, destacam que o título é um orgulho e um atrativo fundamental para o desenvolvimento local, com crescimento no mercado imobiliário e no turismo gastronômico e de aventura.
Anita Soeiro, comerciante em Santa Teresa, reforça que a cidade gira em torno dessa tradição, com casas tombadas e eventos semanais que atraem visitantes de todo o Brasil e até do exterior. Embora o título seja simbólico e não confira vantagens econômicas diretas, como repasses de verbas, ele tem potencial para promover as cidades e movimentar o turismo, valorizando a cultura e a história local.
Contexto histórico da imigração italiana
Registros do Arquivo Público do Espírito Santo detalham que os primeiros 388 italianos chegaram ao estado em 17 de fevereiro de 1874, no navio La Sofia, após uma viagem tumultuada com tempestades e atrasos. Inicialmente destinados a trabalhar na Fazenda Monte das Palmas, muitos imigrantes se decepcionaram com as condições e migraram para outras regiões, incluindo Santa Leopoldina e, posteriormente, o Núcleo do Timbuy, onde hoje é Santa Teresa. A imigração foi oficialmente incentivada pelo governo com a chegada do Rivadavia em 1875, consolidando a colonização com o sorteio de lotes em 26 de junho daquele ano.
Santa Teresa foi fundada em 26 de junho de 1874 e emancipada em 22 de fevereiro de 1891, mantendo até hoje uma forte ligação com suas raízes italianas, enquanto São João Batista busca corrigir o que considera uma distorção histórica. A disputa, portanto, vai além de um mero reconhecimento formal, envolvendo identidade cultural, orgulho regional e a preservação da memória coletiva de duas comunidades profundamente marcadas pela imigração italiana.



