Zelensky nomeia chefe da espionagem para comandar gabinete em meio a crise
Chefe da espionagem ucraniana assume gabinete presidencial

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, realizou uma mudança crucial no núcleo do seu poder nesta quarta-feira, 2 de janeiro de 2026. Ele nomeou Kyrylo Budanov, o chefe da inteligência militar do país, como o novo chefe do Gabinete da Presidência, um dos cargos mais influentes da política ucraniana.

Mudança em meio a turbulência política

A decisão ocorre semanas após a renúncia de Andriy Yermak, braço direito de Zelensky desde o início da guerra contra a Rússia. Yermak estava indiretamente envolvido em um escândalo de corrupção no setor de energia, que desencadeou a maior crise política interna desde a invasão russa de fevereiro de 2022.

Budanov, de 39 anos, confirmou a aceitação do cargo através de uma mensagem no Telegram. Em um comunicado na rede X, Zelensky justificou a mudança pela necessidade de uma maior concentração em questões de segurança, no desenvolvimento das Forças de Defesa e na via diplomática das negociações.

Quem é Kyrylo Budanov, o novo homem forte

Kyrylo Budanov é uma figura enigmática que ganhou enorme projeção nacional durante a guerra. Cultivado pela comunicação oficial, ele é associado a operações de alto impacto da inteligência militar, incluindo ações de sabotagem em território russo e em áreas ocupadas.

Um dos seus trunfos estratégicos é ser um dos poucos altos funcionários ucranianos que manteve canais indiretos de comunicação com Moscou ao longo do conflito, especialmente em negociações para troca de prisioneiros, conforme reportado pelo Financial Times e pela Reuters.

Internamente, ele figura consistentemente entre os políticos mais populares do país, o que alimentou especulações sobre um futuro eleitoral. No entanto, sua atuação também gerou desconforto entre aliados ocidentais. Fontes indicam que parceiros como os Estados Unidos alertaram Budanov contra planos considerados excessivamente arriscados, com medo de uma escalada direta com a Rússia.

Reorganização do aparato de segurança

A nomeação de Budanov faz parte de uma reorganização mais ampla do aparato de segurança do governo ucraniano. Zelensky pretende indicar Oleh Ivashchenko, atual chefe do serviço de inteligência externa, para substituir Budanov à frente da Diretoria Principal de Inteligência do Ministério da Defesa.

Além disso, Serhii Deineko, chefe do Serviço Estatal de Guarda de Fronteiras, será transferido para o Ministério do Interior, abrindo espaço para novas nomeações no setor.

Desafios e contexto estratégico

A troca no comando do gabinete presidencial acontece em um momento delicado. Kiev intensificou esforços diplomáticos para obter garantias de segurança de aliados ocidentais, principalmente dos EUA e da União Europeia, sob pressão por um acordo que leve ao fim da guerra.

O cargo de chefe do Gabinete da Presidência, embora formalmente administrativo, concentra enorme poder nos bastidores e costuma ser alvo de desgaste público, como ocorreu com Yermak. Este se tornou o principal negociador de Kiev durante as tentativas do ex-presidente americano Donald Trump de impor uma solução rápida para o conflito.

Em nota, Budanov afirmou ser “uma honra e uma responsabilidade” assumir o foco nas questões estratégicas de segurança “neste momento histórico para a Ucrânia”. A nomeação só terá efeito legal após a publicação do decreto presidencial.

A mudança sinaliza uma tentativa de Zelensky de recompor sua base política e reforçar a credibilidade do governo em meio a uma guerra prolongada, à pressão internacional por negociações e ao crescente cansaço interno com os custos humanos e econômicos do conflito.