Apagão Digital no Irã Isola País Durante Ofensiva Militar
O regime teocrático islâmico do Irã implementou um severo bloqueio de internet desde o início da ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel contra o país, em 28 de fevereiro. Esta medida mergulhou a nação em um profundo apagão de informações, com a conectividade caindo para cerca de 1% dos níveis normais, segundo dados da plataforma de monitoramento NetBlocks.
Histórico de Cortes e Impacto Atual
Bloqueios de internet e apagões digitais não são novidade no Irã. O regime costuma cortar o acesso à rede sempre que ocorrem protestos antigoverno em massa. Durante a onda de manifestações em janeiro, que teria deixado milhares de mortos após repressão brutal, as autoridades impuseram um apagão que durou semanas. O mesmo roteiro se repetiu durante a guerra de 12 dias com Israel em junho passado.
Na quinta-feira, 5 de março, o NetBlocks contabilizava mais de 120 horas ininterruptas de apagão. Dentro do Irã, tarefas simples como usar o Google Maps ou buscar informações em sites tornaram-se impossíveis. Apenas a intranet local, extremamente limitada, permanece disponível.
Preocupação dos Iranianos no Exterior
O bloqueio restringiu severamente o fluxo de informações e comunicação, não apenas de dentro para fora do Irã, mas também no interior do país. Hayberd Avedian, membro do conselho da Ayande e.V., uma associação juvenil na Alemanha, descreveu a situação como extremamente estressante.
"Quando acordo de manhã, minha primeira pergunta é: 'Meus pais ainda estão vivos? Estão ilesos?' Imediatamente verifico as notícias: quais áreas foram bombardeadas, onde houve ataques?", disse Avedian. "Mesmo que eu não veja nenhum ataque onde eles moram, o medo permanece porque muitas vezes não consigo contatá-los."
Mitra B., de 50 anos, que deixou o Irã após a Revolução Islâmica de 1979 e agora vive na Alemanha, compartilhou preocupações semelhantes: "Ainda não tive notícias da minha tia no Irã. Minha esperança é que ela esteja viva, que esteja bem e que o Irã se liberte em breve deste regime."
Tentativas de Contornar o Bloqueio
Embora a maioria dos iranianos esteja isolada do mundo digital, um grupo seleto de pessoas ligadas ao regime e seus apoiadores continua a desfrutar de acesso irrestrito à internet usando os chamados "chips brancos", cartões pré-pagos anônimos. Relatórios sugerem que existam mais de 50 mil desses chips no Irã.
Para outros, a comunicação tem sido um grande desafio:
- Telefonar para o Irã a partir do exterior é quase impossível
- Alguns relatam breves momentos do dia em que conseguem se conectar
- Muitos recorrem a ferramentas para burlar a censura, como VPNs ou assinaturas ilegais da Starlink
A situação dificulta a cobertura jornalística do conflito e impede que ativistas e o público em geral compartilhem relatos independentes dos acontecimentos.
Riscos Adicionais aos Civis
A atual suspensão dos serviços de internet acarreta um risco adicional significativo. Os militares israelenses emitem regularmente alertas antes de lançar ataques aéreos, instando civis a evacuarem certas áreas. Com o apagão digital, o acesso dos cidadãos a esses alertas fica cada vez mais limitado.
"Mesmo alertas importantes e pedidos de evacuação, como os emitidos pelas Forças de Defesa de Israel, não chegam a muitas pessoas a tempo porque a internet no Irã é deliberadamente desligada", explicou Avedian.
Tahireh Panahi, pesquisadora da Universidade de Kassel, destacou que o apagão da internet "não é apenas um problema individual, mas também social". Ela observou que isso dificulta a organização de protestos antigovernamentais e garante que informações sobre crimes do regime não cheguem ao mundo exterior.
Consequências da Desinformação
Especialistas afirmam que o vácuo de informações criado pelo bloqueio leva a uma onda de desinformação, já que relatos pró-regime ocupam esse espaço. A situação coloca vidas de civis em risco adicional e isola ainda mais o país durante este período crítico de conflito militar.



