Ataques de Israel ao Líbano colocam em risco frágil cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos
Mesmo com um cessar-fogo cambaleante e negociações de paz ainda em estágio inicial, Estados Unidos e Irã já reivindicam, na mesma medida, a vitória sobre um conflito que nem sequer terminou. As delegações dos dois países se reúnem hoje no Paquistão em busca de um acordo definitivo para encerrar as hostilidades. Apesar das narrativas triunfantes, ambos os lados contabilizam perdas e ganhos profundamente assimétricos em áreas estratégicas, políticas, econômicas e, principalmente, militares.
Âmbito militar: baixas significativas de ambos os lados
Numericamente, o Irã, alvo do maior número de bombardeios desde o início da guerra, sofreu mais baixas militares. Segundo o Pentágono, os ataques coordenados dos EUA e de Israel ao território iraniano resultaram em:
- Mais de 1.165 militares iranianos mortos;
- Mais de 2.000 alvos atingidos, incluindo 450 instalações de armazenamento de mísseis balísticos e 800 instalações de drones de ataque;
- Destruição de 51 aeronaves e 27 navios militares;
- Cerca de 80% dos sistemas de defesa aérea do Irã destruídos.
As Forças Armadas dos Estados Unidos, no entanto, não saíram ilesas do conflito. O balanço de baixas militares norte-americanas inclui 13 militares mortos, mais de 300 feridos e dez aeronaves destruídas ou derrubadas. Embora significativas, essas perdas não inviabilizaram a capacidade de retaliação do Irã, na avaliação do professor da Escola Superior de Guerra, Ronaldo Carmona.
"Por certo há uma degradação das capacidades militares do Irã. Contudo, a capacidade de retaliação do Irã segue elevada, como Teerã seguiu demonstrando na fase final da guerra, antes do cessar-fogo", afirmou Carmona.
Economia: custos bilionários e reconstrução de longo prazo
Em termos econômicos, as perdas imediatas foram substancialmente maiores que os ganhos para ambos os lados. Somente nos primeiros doze dias de guerra, os Estados Unidos gastaram aproximadamente US$ 16,5 bilhões (cerca de R$ 82,5 bilhões) em mísseis, drones e bombas, segundo projeções do Centro de Estudos Internacionais e Estratégicos (CSIS), de Washington. O país também contabiliza perdas iniciais de cerca de US$ 1,4 bilhão (cerca de R$ 7 bilhões) em danos diversos.
Para o Irã, no entanto, as consequências econômicas devem pesar ainda mais no período pós-guerra. O país, que já enfrentava anos de economia cambaleante, deve encarar um período estimado de quinze anos de reconstrução, ao custo aproximado de US$ 600 bilhões (cerca de R$ 3 trilhões), segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). Esse gasto colossal seria necessário para cobrir a reconstrução de usinas e infraestruturas críticas destruídas durante os conflitos.
Âmbito político: desgaste e transição de poder
Do lado iraniano, a baixa política mais visível ocorreu já no primeiro dia de ataques: o aiatolá Ali Khamenei, então líder supremo do país e autoridade máxima por quase quatro décadas, foi morto em uma das ofensivas. Além de Khamenei, outros quinze integrantes do regime iraniano também foram alvejados e mortos. Em uma transição improvisada, o conselho dos aiatolás elegeu o filho de Ali Khamenei, Mojtaba Khamenei, para substituí-lo.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o novo líder supremo foi gravemente atingido em um ataque que matou também toda a sua família. Desde que assumiu o poder, Khamenei ainda não apareceu em público. A guerra também deixou um rastro de desgaste político para Trump, que enfrenta desafios para reconquistar o apoio dos norte-americanos.
Uma pesquisa publicada no final de março apontou que a guerra no Irã derrubou a aprovação do presidente dos EUA ao menor nível desde o início de seu segundo mandato na Casa Branca. A própria base de Trump demonstra descontentamento, com a ex-deputada Marjorie Taylor Greene, anteriormente aliada, pedindo sua destituição com base na 25ª Emenda da Constituição.
Campo estratégico: ganhos geopolíticos e objetivos não alcançados
No campo estratégico, o Irã contabiliza ganhos mais vantajosos, segundo análise do professor Ronaldo Carmona. O país fortaleceu sua posição ao perceber o ativo geopolítico do Estreito de Ormuz, que controla, e conseguiu sobreviver e revidar intensos ataques das poderosas Forças Armadas dos EUA e de Israel.
"Vale observar que o Irã tira proveito de sua geografia, constituindo instalações militares e fábricas de mísseis e drones encravadas nas montanhas", destacou Carmona.
Do lado dos Estados Unidos, analistas avaliam que Donald Trump não apenas luta agora para encontrar meios de sair da guerra, como também não alcançou o principal objetivo que afirmou buscar ao atacar o Irã: destruir o programa nuclear iraniano. O governo iraniano já reafirmou diversas vezes que não abrirá mão de seu programa de enriquecimento de urânio.
Para o professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas e da FAAP, Vinícius Rodrigues, a perda estratégica dos Estados Unidos pode até definir o "declínio da potência americana de modo irreversível". "As consequências de longo prazo desse conflito parecem que vão continuar. Temos um momento definidor de declínio americano", afirmou Rodrigues em entrevista.
Enquanto isso, os recentes ataques de Israel ao Líbano colocam em risco adicional o já frágil cessar-fogo, demonstrando como a instabilidade na região continua a ameaçar qualquer avanço rumo à paz duradoura.



