Tensão cresce entre Tarcísio e Flávio Bolsonaro na disputa pela candidatura presidencial da direita
Tensão entre Tarcísio e Flávio Bolsonaro por vaga contra Lula

Disputa interna na direita se intensifica com movimentos estratégicos de Tarcísio e Flávio Bolsonaro

O cenário político brasileiro vive um momento de alta tensão e movimentação estratégica, com a disputa na direita se acirrando significativamente entre o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, e o senador Flávio Bolsonaro. Ambos buscam consolidar suas posições como potenciais candidatos à Presidência da República nas eleições de 2026, com o objetivo claro de enfrentar o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O episódio do encontro adiado e suas repercussões políticas

O ponto de partida para essa nova fase de conflito ocorreu quando Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado, solicitou um encontro com Tarcísio de Freitas em Brasília. Inicialmente, o governador demonstrou satisfação com a autorização concedida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, afirmando que visitaria um grande amigo. No entanto, horas depois, Tarcísio cancelou a visita, citando compromissos em São Paulo.

Esse movimento gerou intensa especulação no meio político. Enquanto alguns imaginavam que Bolsonaro poderia estar reconsiderando seu apoio a Flávio em favor de Tarcísio, o senador foi rápido em esclarecer sua posição. Flávio Bolsonaro afirmou categoricamente que seu pai reiteraria o apoio à sua reeleição como governador e descartaria qualquer possibilidade presidencial para Tarcísio.

As estratégias divergentes e as alianças em formação

Analistas políticos observam que o adiamento do encontro revela duas constatações importantes sobre o atual momento. Primeiramente, fica evidente que Tarcísio de Freitas não abandonou suas ambições presidenciais e preferiu evitar um possível beijo da morte político durante a visita. Em segundo lugar, a relação entre o governador e a família Bolsonaro dificilmente retornará ao patamar anterior, marcado por maior proximidade e alinhamento.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro busca fortalecer sua candidatura através de diferentes estratégias:

  • Anúncio do senador Rogério Marinho como coordenador de campanha
  • Produção de material de propaganda com uso de inteligência artificial
  • Fortalecimento de sua base de apoio entre os bolsonaristas mais fiéis

Do outro lado, Tarcísio desenvolve uma abordagem distinta, focada em:

  1. Articulação com ministros do STF para melhorar as condições carcerárias de Bolsonaro
  2. Aproximação estratégica com Michelle Bolsonaro, ex-primeira-dama
  3. Busca por apoio de setores mais amplos, incluindo agronegócio e mercado financeiro

O cenário eleitoral e as pesquisas de opinião

Dados recentes da pesquisa Atlas/Bloomberg revelam um quadro competitivo entre os dois pré-candidatos. Flávio Bolsonaro apresentou crescimento nas intenções de voto desde o lançamento formal de sua candidatura em dezembro, alcançando patamares similares aos de Tarcísio. No entanto, sua rejeição permanece significativamente mais alta, superando em mais de seis pontos percentuais a do governador paulista.

Especialistas destacam que essa diferença na rejeição pode ser determinante em uma eleição que se apresenta extremamente apertada. A rejeição do Flávio é equivalente à do Lula, observa o cientista político Eduardo Grin, da Fundação Getúlio Vargas. Ao mesmo tempo que o nome Bolsonaro tem recall e uma parcela leal do eleitorado, ele também encontra seus próprios limites de crescimento.

As articulações nos bastidores e o papel de figuras-chave

Nos últimos dias, Tarcísio intensificou suas articulações políticas, buscando construir pontes com diferentes setores. Sua aproximação com Michelle Bolsonaro chama particular atenção, pois a ex-primeira-dama adotou uma postura mais moderada em relação ao Supremo Tribunal Federal, diferenciando-se claramente do comportamento de Flávio e seus irmãos.

Figuras religiosas também desempenham papel relevante nesse cenário. O bispo Robson Rodovalho, fundador da igreja Sara Nossa Terra e conhecido de Bolsonaro há cerca de vinte anos, manifestou apoio a Tarcísio, embora não descarte completamente Flávio. Rodovalho afirmou que viu o ex-presidente em dezembro e o considerou preocupantemente debilitado, acrescentando que está empenhado em ajudar na eleição.

O futuro da disputa e os possíveis desdobramentos

A cúpula do Partido Liberal adotou uma postura cautelosa após o episódio do encontro cancelado, evitando alimentar publicamente o conflito interno. Lideranças da legenda afirmam que qualquer briga aberta seria prejudicial para ambos os lados e que a chapa Tarcísio/Michelle estaria encerrada no PL.

Entretanto, do lado do governador de São Paulo, a estratégia continua focada em ganhar tempo e articular nos bastidores até abril. Seus aliados acreditam que Flávio poderá ser desistido pelo próprio Bolsonaro, à medida que o ex-presidente perceber que Tarcísio representa a opção mais viável para derrotar Lula pela direita.

Outros atores políticos observam atentamente esse embate interno. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, sinalizou que seu partido poderá lançar candidato próprio caso Flávio seja o escolhido pela direita, enquanto Tarcísio poderia contar com apoio mais amplo. Governadores como Ratinho Júnior do Paraná e Romeu Zema de Minas Gerais também são observados como possíveis aliados nessa equação complexa.

Para o diretor de risco político da AtlasIntel, Yuri Sanches, a disputa atual na pré-campanha não se dá contra Lula, mas sim dentro do próprio campo da direita. É sobre quem será capaz de encarnar, de forma mais convincente, o desejo de mudança de parte do eleitorado, analisa. O crescimento de Flávio sinaliza força, mas também evidencia o desafio de unificar um campo político ainda fragmentado.

Desde que as condenações judiciais colocaram em xeque uma nova candidatura de Jair Bolsonaro, a grande questão tem sido sobre quem levará adiante a bandeira da direita brasileira. Partidos mais ao centro alimentam a perspectiva de uma aliança que unifique a oposição, com apoio bolsonarista, mas sem um membro da família encabeçando a chapa. Os movimentos intensificados na última semana mostram que o jogo político ganhou nova tensão, mas permanece complexo e distante de uma definição clara.