Encontro na Papudinha busca acalmar ânimos e definir papéis para 2026
A visita do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), nesta quinta-feira (29), deve marcar um novo capítulo nas relações entre os dois líderes da direita brasileira. Segundo avaliação de aliados próximos, o encontro na Papudinha, onde Bolsonaro está preso em Brasília, tem como objetivo principal a acomodação política e o reforço da lealdade partidária.
Reaproximação após tensões recentes
O clima para a reunião é considerado positivo após uma série de desentendimentos que colocaram os políticos em rota de colisão. Recentemente, Tarcísio cancelou uma visita que estava prevista para a quinta-feira passada (22), demonstrando insatisfação com a pressão por um apoio explícito à candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente.
Esse atrito foi agravado por gestos interpretados como ambições nacionais do governador, incluindo sua articulação junto ao STF (Supremo Tribunal Federal) pela concessão de prisão domiciliar a Bolsonaro. O movimento foi visto pelo entorno de Flávio como uma tentativa de credenciamento para a corrida presidencial.
Consolidação de papéis eleitorais
Pessoas próximas a Tarcísio afirmam que ele deve reforçar durante o encontro sua decisão de permanecer em São Paulo para disputar a reeleição em 2026, abandonando definitivamente pretensões nacionais. O governador chegou a ser cogitado para concorrer ao Palácio do Planalto, mas foi preterido por Bolsonaro, que optou por lançar o próprio filho na disputa contra o presidente Lula (PT).
"Isso não vai acontecer. Mas eu diria não", declarou Tarcísio em entrevista à rádio Jovem Pan de Sorocaba, referindo-se a um eventual pedido de Bolsonaro para que dispute a Presidência. Auxiliares do governador afirmam que o quadro já está definido, com ele focado na reeleição em São Paulo e Flávio na disputa presidencial.
Gestos de reaproximação prévios
Nos últimos dias, ambos os lados fizeram movimentos para reduzir as tensões. Tarcísio passou a afirmar publicamente que disputará a reeleição, enquanto aliados de Bolsonaro destacaram a lealdade do governador, ex-ministro da Infraestrutura, ao antigo chefe.
Nesta quarta-feira (28), o ex-vereador Carlos Bolsonaro (PL) publicou em uma rede social que esteve com Tarcísio em São Paulo, em um encontro descrito como amistoso. "Foi mais um momento muito bacana com o eterno ministro, por quem tenho um carinho e uma admiração enormes", escreveu o filho do ex-presidente. Tarcísio respondeu: "Foi muito bom estar com você no dia de hoje. Você sempre será credor do meu respeito e da minha amizade".
Expectativas para o encontro
A expectativa é que Bolsonaro receba o governador de forma cordial e deixe mais claras as diretrizes políticas para 2026. Entre os temas que podem ser abordados estão:
- A composição da chapa bolsonarista em São Paulo, com Tarcísio indicando Guilherme Derrite (PP) ao Senado e o PL definindo seu candidato
- O papel do governador no fortalecimento do palanque para Flávio Bolsonaro no estado mais populoso do país
- Possível atuação de Tarcísio como articulador nacional da campanha presidencial
Segundo pessoas próximas ao governador, o principal objetivo da visita é demonstrar solidariedade, com espaço também para temas pessoais. "Vou ver um amigo. Geralmente, levo essas conversas de forma muito leve. Quero saber primeiro como ele está, se precisa de alguma coisa. Mostrar que a gente aqui fora está com ele", afirmou Tarcísio durante um evento em Sorocaba.
Cenário fragmentado da oposição
No campo da oposição a Lula, o cenário ainda apresenta fragmentação. Flávio Bolsonaro tem acenado para uma possível convergência com outros nomes da direita, como os governadores Ratinho Junior (PSD-PR) e Romeu Zema (Novo-MG). Paralelamente, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, também pré-candidato ao Planalto, anunciou filiação ao PSD, presidido por Gilberto Kassab.
Diante desse contexto, a visita de Tarcísio a Bolsonaro não deve provocar mudanças significativas no tabuleiro eleitoral, mas sim consolidar papéis previamente definidos e reforçar a coesão do campo bolsonarista. Aliados esperam que o ex-presidente apresente suas diretrizes para a eleição em São Paulo, embora a política não deva ser o único assunto do encontro.
O ex-presidente está preso em regime fechado desde 22 de novembro, cumprindo pena de 27 anos e três meses determinada pelo STF por tentativa de golpe de Estado. Seus aliados alegam deterioração de seu estado de saúde e continuam buscando a transferência para o regime domiciliar.