Economistas criticam aumento para servidores do legislativo como 'bomba relógio fiscal'
A aprovação de reajustes salariais para servidores da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, com aumentos entre 8% e 9%, gerou uma forte reação negativa de economistas e investidores. A medida, aprovada de surpresa pelo Congresso, segue agora para sanção presidencial, em um momento de alta sensibilidade fiscal no país.
Reação imediata e preocupações estruturais
As propostas, que avançaram com o apoio das mesas diretoras das duas Casas legislativas, foram confirmadas em comunicados oficiais e repercutiram mal entre especialistas. Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, destacou que o problema é estrutural e vai além do Executivo, apontando uma "benevolência" generalizada dos três Poderes com os gastos públicos.
Segundo Agostini, o Legislativo tem falhado em dar o exemplo, pois "já abocanhou uma fatia muito grande do orçamento e não tem contribuído para um ambiente fiscal melhor". Ele classificou a criação de cargos e a ampliação de despesas em um país com altos níveis de pobreza como "uma ação amoral".
Efeitos colaterais sobre juros e dívida pública
O efeito colateral mais imediato, de acordo com Agostini, recai sobre os juros. Com mais gastos permanentes, o Banco Central do Brasil fica pressionado a manter a taxa elevada – atualmente em 15% – para compensar o risco fiscal. Isso dificulta o cumprimento da meta fiscal e aumenta a chance de congelamentos orçamentários futuros, especialmente em ano eleitoral, quando a tentação de "abrir a torneira" costuma ser maior.
Na mesma linha crítica, Marcelo Mello, CEO da SulAmérica Investimentos, alertou para o desalinhamento entre política fiscal e monetária. Ele argumentou que não há como sustentar um ambiente macroeconômico saudável com gastos em alta e juros reais na casa de 10%, descrevendo a situação como "insustentável no longo prazo".
Impacto na economia e na dinâmica da dívida
Marcelo Mello também expressou preocupação com a trajetória da dívida pública, que pode encerrar o mandato atual perto de 84% do PIB. O recado do mercado é direto: sem clareza e disciplina do lado fiscal, não há espaço para juros mais baixos. Decisões como o reajuste do Legislativo reforçam a percepção de que o esforço de ajuste ainda está longe de ser coletivo.
No fim, a conta aparece em juros altos, crescimento econômico menor e menos espaço para políticas públicas onde elas realmente fazem falta, afetando a população de forma direta.



