Um pastor evangélico de 38 anos, Alan Pereira Vicente, foi preso na última quinta-feira (7) em Fortaleza, suspeito de usar falsas curas de doenças para abusar sexualmente de fiéis da igreja que liderava. A prisão foi mantida pela Justiça Estadual durante audiência de custódia realizada nesta sexta-feira (8). A defesa do suspeito não foi localizada para comentar as acusações.
Abusos com pretexto de cura
Segundo relatos das vítimas à polícia, Alan Pereira Vicente abordava as mulheres da igreja com a justificativa de curá-las de supostas doenças. Uma dona de casa de 20 anos contou à TV Verdes Mares que o líder religioso disse que, se não fizesse o que ele mandava, ela teria câncer e morreria. Com esse pretexto, ele a induziu a aceitar que colocasse as mãos em suas partes íntimas.
A vítima relatou que o pastor mandou que ela se deitasse e relaxasse. Ele passou a mão sobre a roupa e, em seguida, mostrou um pedaço de agulha, dizendo que precisava retirar a outra parte que estava dentro dela. Para isso, introduziu as mãos na vítima. “Ele colocou o punho e os cinco dedos dentro de mim, ele ficava remexendo dentro. Ele disse que não estava conseguindo. Ele levou um recipiente cheio de azeite, passou por toda a mão”, chorou a vítima.
O episódio ocorreu em 2025, após a jovem se queixar sobre uma inflamação na cirurgia do parto. Um dia depois, o pastor passou a ligar e enviar mensagens, dizendo que precisava ir à casa dela para “resolver coisas espirituais”. Ele foi à residência à tarde, pouco antes do culto. A mulher tentou manter distância, sentando em outro sofá com a filha de poucos meses no colo, mas o pastor pediu que ela colocasse a criança no quarto e iniciou os abusos.
Para justificar os atos, Alan usou a passagem bíblica de Marcos 16:18: “os discípulos iriam impor as mãos nos enfermos e eles irão ser curados”. Os encontros ocorreram por três dias consecutivos. No quarto dia, a vítima se recusou a continuar e deixou de frequentar a igreja.
Estupro em motel
Outra mulher, de 27 anos, também acusa o pastor de estupro. Ela relatou que Alan disse ter “identificado” um tumor no útero dela e que “precisava removê-lo”. Alegou já ter presenciado um caso semelhante em que a pessoa morreu por não realizar o procedimento. Com medo, a jovem aceitou encontros em uma sala da igreja, onde ele pedia que ela retirasse as roupas íntimas e realizava toques íntimos sob a justificativa de retirar o suposto tumor.
Em outra ocasião, a mulher encontrou o pastor por acaso no Centro de Fortaleza, onde ele trabalhava como segurança. Ele ofereceu carona de moto, mas desviou o caminho e a levou para um motel. Mesmo diante da recusa, ela foi violentada e pressionada a não denunciar. Após o episódio, o homem pediu que ela orasse e o perdoasse. “Ele falou que eu tinha câncer, fez orações por mim. Foi depois do estupro que eu entendi que tudo era abuso”, relatou.
A jovem comunicou o caso à direção da igreja em março deste ano. O pastor foi expulso em abril, mas antes disso passou a difamá-la perante outros fiéis.
Ameaça de acionar facção
Fontes ouvidas pela TV Verdes Mares afirmam que pelo menos três mulheres adultas e dois menores de idade teriam sido vítimas dos crimes sexuais. Duas formalizaram denúncia à polícia. Um áudio obtido pela TV mostra o pastor ameaçando o companheiro de uma das vítimas. No áudio, Alan “amaldiçoa” o homem e cita a possibilidade de acionar a facção Comando Vermelho. “Eu te amaldiçoo. Que a mão de Deus pese sobre a tua vida e sobre a tua casa. Que Deus faça perder tua língua e quebrar teus dentes. [...] Tu tem sorte, macho, de eu não mandar os meninos do CV aí te dá uma pisa”, disse.
A Polícia Civil informou que o pastor foi capturado em casa, no momento em que se preparava para ir à igreja, mediante cumprimento de mandado de prisão preventiva. Ele foi conduzido à Delegacia de Capturas e está à disposição da Justiça. As investigações seguem em andamento, inclusive sobre possível coação das vítimas por outros membros da igreja.
Mais acusações
Um terceiro relato, de um frentista de 22 anos, ex-companheiro de uma das vítimas, revela que o pastor fez questionamentos íntimos quando ele tinha 12 anos, perguntando sobre sua virgindade. O suspeito também é acusado de fazer comentários sexuais dentro da igreja. Após os abusos, ele difamava as vítimas na comunidade para descredibilizar as acusações. Em alguns casos, registrou boletins de ocorrência contra as denunciantes, alegando calúnia. As denúncias incluem ameaças de morte, com o pastor afirmando ter ligação com facções criminosas. Ele foi expulso da igreja onde atuava, mas, segundo as denúncias, tornou-se responsável por outro ministério religioso.



