Vingança de Lula? O desrespeito de Toffoli no velório e o caso Master
Lula, Toffoli e o caso Master: desrespeito e vingança política

A Relação Tensa Entre Lula e Toffoli: Do Velório ao Caso Master

A complexa dinâmica entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal, José Antonio Dias Toffoli, volta a ser posta em evidência em meio às investigações do chamado Caso Master. Este episódio reacende memórias de um passado marcado por desentendimentos e um suposto desrespeito que nunca foi completamente esquecido pelo chefe do Executivo.

O Episódio do Velório: Uma Ferida que Não Cicatrizou

Em 30 de janeiro de 2019, um dia de verão que ficaria gravado na memória de ambos, ocorreu um evento que definiria parte significativa desta relação. Genival Inácio, conhecido como Vavá, irmão de Lula, era velado em São Bernardo do Campo, São Paulo. No entanto, o ex-presidente, então preso em Curitiba, foi impedido por decisão judicial de comparecer à cerimônia fúnebre.

Em meio ao clima de pesar na capela, com flores brancas e cerca de cinquenta pessoas presentes, a então senadora Gleisi Hoffmann expressou a frustração coletiva. "Foi uma maldade", declarou, relatando as palavras de Lula: "Não me deixaram ir. Tudo o que eu posso fazer é chorar e rezar pelo Vavá aqui, mas a gente tem que denunciar o que está acontecendo".

O Partido dos Trabalhadores recorreu ao Supremo Tribunal Federal, e a decisão coube a Toffoli, então presidente do STF. Curiosamente, antes de sua nomeação para a corte suprema por Lula em 2009, Toffoli havia atuado como advogado do ex-presidente, do PT e da Central Única dos Trabalhadores por dezesseis anos.

Às 12h40, Toffoli autorizou a saída de Lula da prisão, mas com restrições severas: ele poderia viajar para "se encontrar exclusivamente com os seus familiares, em Unidade Militar na região". A determinação incluía a proibição do uso de celulares, presença da imprensa e declarações públicas. Quando a autorização chegou, o enterro de Vavá já havia começado, tornando a medida inútil e, para muitos, um claro desrespeito.

O Perdão e as Consequências Políticas

Lula nunca esqueceu esse episódio, que considerou uma afronta pessoal. Toffoli, por sua vez, também manteve a memória viva. Dez meses depois, ele colocou em votação no STF o fim da prisão obrigatória após condenação em segunda instância, o que resultou na libertação de Lula.

O reencontro formal ocorreu em Brasília, em 12 de dezembro de 2022, durante uma celebração pela eleição de Lula ao terceiro mandato. Na ocasião, Toffoli pediu perdão ao presidente pelo que chamou de "absurdo ridículo" da decisão sobre o velório. No entanto, como observa a filósofa Hannah Arendt, o perdão pode ser um simulacro onde uma parte se coloca em posição de superioridade, renunciando à vingança em teoria, mas não necessariamente na prática.

O Caso Master: Um Novo Capítulo de Tensão

Atualmente, Toffoli se encontra envolvido em uma trama complexa que ameaça abalar as estruturas do Estado. O Caso Master, investigado como uma megafraude bancária que pode ser a maior da história brasileira segundo o ministro da Fazenda Fernando Haddad, envolve transações com organizações criminosas e políticos influentes de diversos partidos, incluindo o PT.

O Supremo Tribunal Federal voluntariamente se colocou no epicentro deste terremoto político, expondo relações perigosas entre membros do Judiciário, Congresso e governo com setores da elite empresarial. Lula demonstrou surpresa com a dimensão do escândalo, sentindo a necessidade de divulgar seu conhecimento sobre pagamentos do Banco Master ao então ministro da Justiça Ricardo Lewandowski, assim como os laços do chefe da Casa Civil Rui Costa e do líder do governo no Senado Jaques Wagner com envolvidos na fraude.

A Crise que Ameaça o Planalto

A crise começou a escalar em direção ao Palácio do Planalto, representando um risco significativo em um ano eleitoral. Entre as investigações estão maracutaias com títulos falsos do grupo Master, lavagem de dinheiro do PCC através de fundos de investimento da corretora Reag, e fraudes no INSS com participação de sócios do Master.

Lula identificou um novo ponto de conflito com Toffoli: o que considera uma série de trapalhadas na condução do Caso Master no Supremo. De acordo com a repórter Catia Seabra, o presidente chegou a considerar sugerir que Toffoli se afastasse do caso, se licenciasse, se aposentasse ou renunciasse, mas conteve-se para evitar acusações de interferência inconstitucional do Executivo no Judiciário.

O presidente parece não acreditar em poesia na política, descartando a visão do poeta Carlos Drummond de Andrade de que "o perdão pode ser a maneira mais requintada de vingança". Em vez disso, a relação entre Lula e Toffoli permanece um jogo complexo de poder, memória e possíveis retaliações, com o Caso Master servindo como o mais recente campo de batalha nesta guerra política silenciosa.