Lula enfrenta o cenário de primeiro turno mais apertado de sua trajetória eleitoral
O presidente Lula (PT) se depara, atualmente, com o cenário de primeiro turno mais apertado de todas as eleições presidenciais em que saiu vitorioso. Dados históricos do Datafolha, coletados aproximadamente seis meses antes das eleições nos anos de 2002, 2006 e 2022, revelam que a vantagem do petista em relação ao seu principal adversário nunca foi tão reduzida.
Comparação histórica mostra redução consistente da margem
Em 2002, quando Lula foi eleito presidente pela primeira vez, o político possuía, em 9 de abril, uma diferença de dez pontos percentuais sobre o segundo colocado, o tucano José Serra. Na eleição seguinte, que resultou em sua reeleição, o petista estava, conforme pesquisa de junho, 17 pontos à frente de Geraldo Alckmin, então seu principal opositor pelo PSDB.
Quando retornou para concorrer em 2022, em um cenário já marcado pela polarização com o bolsonarismo, Lula registrava 48% das intenções de voto em maio daquele ano, contra 27% de Jair Bolsonaro. A pesquisa Datafolha divulgada neste sábado (11) indica o político com 39% das intenções de voto no primeiro turno, seguido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com 35%. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Análise de especialistas aponta eleitorado mais dividido
"Esses dados são muito simbólicos porque mostram uma redução consistente da margem de liderança em comparação com os ciclos anteriores", analisa o cientista político Elias Tavares. Segundo ele, o cenário reflete um eleitorado mais fragmentado e um ambiente mais competitivo para o petista, que não conseguiu implementar grandes marcas ou programas que o reconectassem com a população, como foi o "Fome Zero", de combate à insegurança alimentar, no início dos anos 2000.
"Em 2002, Lula vinha numa onda de mudança, com discurso novo e expectativa alta. Em 2006, mesmo com o desgaste do mensalão, ainda tinha uma liderança relativamente confortável. Em 2022, apesar da polarização, conseguiu sustentar uma vantagem consistente, muito também porque havia uma rejeição elevada ao Jair Bolsonaro, e o Lula soube ocupar esse espaço como principal contraponto a um governo que enfrentava insatisfação relevante naquele momento", avalia Tavares.
Polarização e voto útil devem definir pleito imprevisível
De acordo com o especialista, a perda de folga obriga o pré-candidato, desgastado pelos longos anos na política, a "disputar o voto o tempo inteiro, sem margem para erro". Pesa no cálculo também o fato de a oposição começar mais consolidada do que os adversários de anos anteriores, reflexo de uma "polarização mais imediata e com menos espaço para crescimento" para Lula, analisa Tavares.
Bruno Bolognesi, cientista político e professor da UFPR (Universidade Federal do Paraná), também atribui à polarização parte da justificativa que gera cenário mais apertado para o petista, o que para o especialista torna o pleito imprevisível. Nesse contexto, afirma, ganha peso a exploração do voto útil, utilizado no segundo turno pelo eleitor mais para evitar que o opositor vença o pleito do que para apoiar um candidato.
"É uma eleição em que o voto útil deve imperar de novo, o que é comum em países polarizados como Brasil e Estados Unidos", destaca Bolognesi.
Rejeição similar entre Lula e Flávio Bolsonaro
Lula e Flávio Bolsonaro apresentam índices de rejeição similares. Conforme o último Datafolha, o petista tem 48% de rejeição, contra 46% de Flávio. Os ex-governadores Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado (PSD), de Goiás, registram 17% e 16% respectivamente, mas são menos conhecidos nacionalmente.
Em 2022, marcado também pela polarização entre Lula e o bolsonarismo, o petista tinha rejeição menor, variando de 33% a 40%, frente a uma variação de 51% a 55% de Jair Bolsonaro (PL), segundo pesquisas Datafolha de maio a outubro daquele ano.
Governo desgastado e falta de experiência do adversário
Para Luis Gustavo Teixeira, doutor em ciência política e professor da Unipampa (Universidade Federal do Pampa), o cenário mais apertado para Lula reflete um governo marcado pelo desgaste e desidratação, além da "dificuldade de articular com uma base social e eleitoral mais ampla, para além das fronteiras do petismo".
Ainda assim, há espaço para movimentação a seu favor ao longo da corrida eleitoral, avalia Teixeira, sobretudo pela falta de experiência de Flávio Bolsonaro em um cargo no Executivo. "Enfrentar um processo eleitoral não é fácil, basta lembrar, por exemplo, o desmaio de Flávio no debate eleitoral para a prefeitura do Rio de Janeiro", diz Teixeira, para quem pode pesar também contra o pré-candidato o escrutínio relacionado a acusações de corrupção.
Flávio desmaiou durante um debate transmitido ao vivo na televisão, em 2016, quando concorreu à Prefeitura do Rio. O vídeo foi recuperado nas redes sociais desde que o político anunciou ser pré-candidato à Presidência.
Votos indecisos e cenário econômico podem ser decisivos
Também é preciso considerar, na comparação entre os pleitos analisados, o alto número de votos em branco e de indecisos, parcela que pode ser decisiva para definir o rumo das eleições, avalia Teixeira.
Para Antonio Lavareda, cientista político e sociólogo do Ipespe (Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas), o resultado da mais recente pesquisa aponta cenário em que Lula pode ser ultrapassado "caso a economia piore e a maré de escândalos ganhe maiores proporções".
Lavareda avalia que o maior problema do petista é no segundo turno, quando empata tecnicamente com os adversários em todos os cenários testados pelo Datafolha. Ele afirma que Lula precisa de "uma gordura estatística de três ou quatro pontos de margem, por conta da abstenção diferenciada no seu caso, devido à concentração de seus votos na base da pirâmide social, onde está a maioria dos ausentes das urnas".
Dispersão de votos na direita e vantagem do cargo
Para Luciana Chong, diretora-geral do Datafolha, a comparação entre as pesquisas indica um cenário em que Lula tem menor vantagem mesmo sem dividir votos com outros nomes da esquerda. Ela contrasta com o quadro de 2002, que tinha mais candidatos considerados à época como alinhados ao campo, exemplo de Garotinho e Ciro Gomes.
No pleito atual, a dispersão está na direita, com Flávio, Caiado, Zema e outros políticos de menor expressão. "Vamos ter que observar o comportamento dos eleitores que hoje estão votando nos pré-candidatos de direita [fora Flávio Bolsonaro], que somados têm 13% das intenções de voto", afirma Chong.
Já a favor de Lula pesaria o fato de ele estar na Presidência, uma vez que as pesquisas mostram que o candidato à reeleição tende a melhorar sua avaliação à medida que o pleito avança, destaca a diretora do Datafolha.
O resultado de abril de 2026 provém de pesquisa Datafolha realizada com 2.004 pessoas de 16 anos ou mais em 137 cidades, de terça (7) a quinta (9). Ela está registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) com o código BR-03770/2026.



