Governo Lula troca gasto com diesel por economia em juros da dívida pública
Governo troca gasto no diesel por economia em juros da dívida

Governo Lula troca gasto com diesel por economia em juros da dívida pública

Em meio à escalada do preço internacional do petróleo, com o barril do Brent superando US$ 100, o governo federal anunciou nesta quinta-feira, 12 de março de 2026, um pacote de medidas para conter os impactos no combustível. A estratégia envolve a zeragem dos tributos federais PIS/Cofins sobre o diesel e o pagamento de uma subvenção de R$ 0,32 por litro a produtores e importadores.

Impacto imediato nos preços e nas contas públicas

As ações governamentais buscam compensar um reajuste de 0,32% por litro nas refinarias da Petrobras, que passará a valer a partir de sexta-feira, 13 de março. Sem o aumento da estatal, que extrai 70% do óleo do pré-sal a um custo de US$ 21 por barril, as medidas poderiam gerar uma queda de aproximadamente 10% no preço final do diesel nos postos. Com o ajuste, espera-se que o impacto seja mitigado.

No entanto, a iniciativa tem um custo fiscal significativo. Estima-se que a perda de arrecadação com a desoneração tributária seja da ordem de R$ 20 bilhões, enquanto o subsídio aos produtores e importadores – que respondem por 20% do consumo nacional – custará cerca de R$ 10 bilhões.

O outro lado da moeda: economia em juros da dívida

Antes que críticos apontem um suposto estouro das contas públicas em R$ 30 bilhões, é crucial examinar os efeitos macroeconômicos da medida. A redução da pressão inflacionária abre espaço para que o Banco Central prossiga com o ciclo de cortes na taxa Selic, hoje em 15% ao ano.

Conforme dados do BC, cada ponto percentual de redução na Selic gera uma economia de R$ 62,9 bilhões em juros da dívida pública ao longo de 12 meses. Com a expectativa de três pontos de queda ainda em 2026, a economia total poderia alcançar R$ 188 bilhões – valor que supera em muito o custo das medidas com o diesel.

Em janeiro de 2026, a Dívida Líquida do Setor Público somava R$ 8,3 trilhões, enquanto a Dívida Bruta chegava a R$ 10,1 trilhões. Somente naquele mês, os juros pagos totalizaram R$ 63,6 bilhões – mais que o dobro do subsídio previsto na MP do diesel.

Cenário econômico e perspectivas inflacionárias

O mercado financeiro já previa, antes do recente conflito no Oriente Médio, cortes na Selic para patamares entre 12% e 12,25% ainda este ano, com o IPCA variando de 3,8% a 4,1%. A guerra, no entanto, alterou as projeções, elevando a cotação do petróleo e pressionando os custos de produção.

Consultorias como a 4Intelligence alertam que um eventual reajuste de 10% na gasolina A teria um impacto direto de aproximadamente 0,15 ponto percentual no IPCA. Para 2026, a projeção de inflação já foi revisada de 4,1% para 4,2%, incorporando os efeitos do conflito internacional.

Além das medidas com o diesel, a MP também estabelece um Imposto de Exportação de 12% sobre o petróleo, com o objetivo de aumentar o refino interno e garantir o abastecimento. Em 2023, uma alíquota semelhante de 9,2% gerou uma arrecadação de R$ 1,4 bilhão, abaixo dos R$ 6,6 bilhões esperados.

Conclusão: uma aposta no crescimento

A decisão do governo Lula representa uma opção estratégica de curto prazo. Ao assumir um custo fiscal imediato, busca-se conter a inflação, permitir a redução dos juros e estimular o crescimento econômico. Os bons resultados de janeiro – com alta de 1,8% na indústria, 0,9% no comércio e 0,3% em serviços – indicam que a economia responde a estímulos.

No longo prazo, a expectativa é que o aumento do PIB e das receitas federais compense os gastos iniciais, enquanto a economia com juros da dívida pública oferece um alívio estrutural às contas nacionais. O desafio, agora, é equilibrar essas medidas com a volatilidade do mercado internacional de energia.