Além do futebol de craques como Messi, dos vinhos de Mendoza e dos cortes de carne para parrilla, a Argentina possui um patrimônio natural menos conhecido, mas igualmente notável: seus monumentais glaciares. Essas geleiras dominam a paisagem fria dos Andes e da Patagônia, marcando o encontro entre a água líquida e o solo terrestre, criando cenários espetaculares. O Parque Nacional dos Glaciares da Argentina é patrimônio da humanidade pela Unesco desde 1981, reconhecido por sua "área de beleza natural excepcional". No país vizinho, existem 16.968 dessas formações, espalhadas por mais de 8.400 quilômetros quadrados, conforme o Inventário Nacional dos Glaciares, uma das medidas previstas na pioneira Lei dos Glaciares (2010), que garante a preservação dos corpos de gelo e áreas de congelamento intermitente.
Apesar de sua imponência, os gigantes blocos gelados têm sua existência ameaçada, provocando uma celeuma acalorada. Atualmente, os glaciares estão no centro de uma batalha política e econômica que confronta, de um lado, o presidente ultraliberal Javier Milei e seus aliados e, de outro, a oposição peronista e ativistas ambientais. No mês passado, foi aprovada na Câmara dos Deputados argentina uma reforma na legislação vigente há dezesseis anos. O controle para determinar áreas com permissão para mineração, antes concentrado em um instituto federal nos moldes do Ibama brasileiro, passou aos governos provinciais. Com a nova lei, as autoridades locais decidem por si mesmas, com base na "função hídrica relevante", se uma região continua ou não sob proteção legal. A decisão favorece a mineração de cobre e lítio em áreas próximas às geleiras, já que o desenvolvimento na exportação de terras-raras e outros elementos estratégicos é uma obsessão de Milei. "Quanto tempo mais vamos seguir postergando o desenvolvimento de nossas províncias?", questionou a deputada Fernanda Ávila, presidente da Comissão de Mineração da Câmara, entre os 137 votantes favoráveis à reforma.
A decisão não demorou a ser alvo de protestos. Nas ruas de Buenos Aires, cartazes exibiam frases como "Na Lei dos Glaciares não se toca" e "Deputados, não traiam os argentinos". A pressão surtiu efeito: na semana retrasada, a medida do governo Milei sofreu um revés. Um tribunal suspendeu a vigência da nova lei em Santa Cruz, província que concentra os maiores glaciares da Argentina e abriga o parque dedicado a eles. As vozes contrárias à exploração brandem um argumento poderoso: a extração de minério pode comprometer o fornecimento de água em certas partes do país. "As geleiras funcionam como uma reserva que libera água no verão ou em épocas de seca. É essa função que mantém os rios, os pântanos e a biodiversidade de regiões áridas do país", explica Agostina Rossi Serra, especialista em biodiversidade do Greenpeace Argentina. "Em províncias como Mendoza e San Juan, a contribuição dos glaciares pode representar entre 60% e 70% da vazão dos rios nos períodos de seca extrema", completa. Até as safras de uva para a tradicional indústria de vinhos argentina podem sofrer impacto.
Nos últimos anos, mesmo sob o rigor da antiga legislação, projetos de mineração próximos a áreas de geleiras causaram polêmica. Em 2015, um vazamento em uma mina de ouro e prata contaminou um rio nos Andes, prejudicando o abastecimento em diversas cidades. Se a nova regra prosperar, estima-se que a exploração perto dos corpos de gelo pode afetar 7 milhões de pessoas que dependem dessa fonte de água. O perigo de um "liberou geral" da mineração está longe de ser a única ameaça. Os glaciares já sofrem com as mudanças climáticas. O principal deles, Perito Moreno, diminuiu 800 metros em apenas quatro anos, segundo estudo publicado na revista Communications Earth & Environment, da Nature. De acordo com ambientalistas, ao destruir as geleiras, perde-se a estrutura que mantém as montanhas andinas estáveis, o que, combinado com a elevação das temperaturas, aumenta a probabilidade de avalanches e inundações. Um dilema paradoxal atinge os argentinos: é preciso salvar essas montanhas de gelo para não entrar numa fria.



