Plano de Flávio Bolsonaro: Estado mínimo com Bolsa Família gera desconfiança no mercado financeiro
Flávio Bolsonaro: Estado mínimo e Bolsa Família geram impasse

Plano econômico de Flávio Bolsonaro tenta conciliar Estado mínimo com manutenção do Bolsa Família

A pré-campanha de Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República, está construindo um plano econômico que busca resolver um impasse aparente. De um lado, há o compromisso com um Estado mínimo, sustentado por uma agenda agressiva de privatizações e um rigoroso corte de gastos públicos, popularmente conhecido como "tesouraço" fiscal. Do outro lado, existe a promessa reiterada de não mexer em programas de transferência de renda, especialmente o Bolsa Família, numa clara tentativa de atrair o eleitorado de menor poder aquisitivo, tradicionalmente mais próximo do presidente Lula.

Os três pilares da proposta econômica

Nos bastidores, auxiliares do presidenciável descrevem uma "espinha-dorsal" do plano assentada em três pilares fundamentais. O primeiro pilar consiste na venda da maior parte das empresas estatais, com Flávio Bolsonaro já tendo falado publicamente em privatizar até 95% dessas empresas, preservando apenas áreas consideradas estratégicas e ampliando o uso de parcerias público-privadas. O segundo pilar é o estímulo à disciplina fiscal, com a mensagem central de que o governo precisa "gastar menos do que arrecada", concentrando o ajuste no lado da despesa e retomando reformas pró-mercado que ficaram em suspenso após 2022. O terceiro pilar é a redução da carga tributária, com a promessa de que essa medida ajudaria o país a deixar para trás o "voo de galinha" e alcançar um crescimento econômico sustentável de longo prazo.

O ponto de fricção com o mercado financeiro

É justamente a tentativa de conciliar Estado mínimo com a manutenção de programas sociais como o Bolsa Família que hoje alimenta o desconforto de uma parte relevante da Faria Lima, coração do mercado financeiro brasileiro. A equipe econômica de Flávio opera, por enquanto, em modo silencioso, mas mantém interlocução intensa com investidores e economistas, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em reuniões fechadas, o pré-candidato tem repetido que pretende "enxugar" a máquina pública, reduzir tributos e burocracia, e promover cortes amplos em gastos considerados supérfluos, tudo isso sem recorrer a aumentos de impostos.

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A narrativa apresentada a investidores é a de "virar a página da era das estatais" e usar as desestatizações para recompor a confiança na política fiscal e destravar investimentos. Esse discurso, em linhas gerais, encontra boa receptividade no mercado. No entanto, o ponto de fricção surge quando o mesmo projeto rejeita o rótulo de "ultraliberal" e insiste em manter programas de transferência de renda. Os formuladores próximos ao pré-candidato repetem que "não queremos rotular como projeto liberal, pois manteremos projetos sociais como o Bolsa Família", numa tentativa clara de reduzir o desgaste com a base popular e neutralizar a narrativa de que um eventual novo governo cortaria benefícios sociais.

Desconfiança dos gestores financeiros

Em conversas reservadas, gestores e estrategistas que participaram de encontros com o senador admitiram simpatia pela agenda de privatizações e pelo discurso de previsibilidade fiscal, mas veem com desconfiança a blindagem explícita do Bolsa Família. Um gestor de um grande fundo local resume uma dúvida fundamental: é difícil compatibilizar um programa de transferência de renda dessa escala, tratado como intocável, com a promessa de um ajuste profundo e de uma carga tributária mais baixa. Um sócio de banco que esteve em almoço com o pré-candidato em São Paulo avalia que a combinação entre retórica de Estado mínimo e preservação integral de um programa lido como populista pode limitar o espaço para um ciclo de crescimento sustentado apenas com investimento privado e corte de gastos.

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O dilema entre planilha e palanque

À medida que o plano entra na fase de detalhamento, o dilema tende a se acentuar. A campanha enxerga na conciliação entre liberalismo econômico e Bolsa Família uma fórmula eleitoralmente potente, capaz de reduzir o medo de perda de renda entre os mais pobres e ampliar o alcance do discurso pró-mercado. Em contrapartida, parte do mercado avalia que, sem algum tipo de reconfiguração das políticas de transferência, o projeto corre o risco de ficar preso a um meio-termo insatisfatório. Para o mercado, que defende um corte mais profundo do gasto social em nome de um ajuste das contas públicas, essa combinação pode não ser suficiente. Para o campo dito "progressista", orientado por um Estado mínimo mais radical, também pode não atender às expectativas.

É nesse cruzamento delicado entre planilha econômica e estratégia de palanque que o plano econômico de Flávio Bolsonaro será, em última instância, testado. A expectativa é que o plano seja lançado oficialmente até abril, juntamente com a indicação do seu "Posto Ipiranga" da Economia, momento em que as contradições e os desafios dessa proposta híbrida ficarão ainda mais evidentes para todos os atores envolvidos no cenário político e econômico brasileiro.