Economista Ladislau Dowbor critica dreno financeiro e desigualdade no Brasil
Dowbor: dreno financeiro e desigualdade travam economia brasileira

O economista Ladislau Dowbor, 84 anos, professor titular da PUC-SP e ex-consultor da ONU, tem uma missão clara: descomplicar números grandiosos para a população. Em seu vídeo "Entenda a economia em 15 minutos" e em entrevista recente, ele utiliza exemplos cotidianos para explicar cifras complexas, destacando a profunda transformação digital e seus impactos no capitalismo e na desigualdade.

Exemplos do cotidiano revelam fluxos financeiros globais

Dowbor ilustra como o dinheiro circula de forma desigual. "Pago R$ 350 pelo dia de trabalho da minha faxineira, valor transferido digitalmente para sua conta", relata. "Como ela tem problemas de saúde, contratou um plano gerido por empresas que não entendem de saúde. Descubro que entre os sócios está a BlackRock, maior gestora de ativos do mundo. Parte do dinheiro que pago a uma pessoa pobre no Brasil vai para um grupo americano riquíssimo". Esse exemplo mostra como a era digital amplia a concentração de riqueza, tema central de seu livro "Os Desafios da Revolução Digital", vencedor do Prêmio Brasil de Economia 2025.

Desigualdade como obstáculo ao desenvolvimento

Para Dowbor, o desafio número um do Brasil é a desigualdade extrema. O país é o mais desigual do mundo, com um PIB de R$ 12,3 trilhões que, dividido pela população de 215 milhões, resultaria em R$ 20 mil mensais para uma família de quatro pessoas. No entanto, a concentração de renda distorce essa lógica. "Os 300 bilionários no Brasil têm muito dinheiro guardado", explica. "Um dono de R$ 1 bilhão que aplica em títulos do governo atrelados à Selic, a 15% ao ano, ganha mais de R$ 400 mil diários sem produzir nada". Enquanto isso, 80% da população luta para fechar as contas no fim do mês.

Ciclo econômico que não se fecha

O economista critica o sistema que prioriza ganhos financeiros sobre produtivos. "Deputados e senadores mantêm aplicações financeiras e vivem disso", afirma. "Temos um sistema que drena em vez de gerar recursos". Ele defende que famílias com mais recursos criam demanda, dinamizam investimentos empresariais, geram empregos e impostos, completando o ciclo econômico. No Brasil, esse ciclo está quebrado, com lucros maiores em processos financeiros do que produtivos.

Críticas ao arcabouço fiscal e propostas de mudança

Dowbor classifica o arcabouço fiscal como "palhaçada", argumentando que investimentos públicos em bem-estar são tratados como gastos. "Nas economias que funcionam, 40% do bem-estar das famílias vêm de hospitais públicos, ruas asfaltadas e parques", compara. Ele cita o Canadá, onde serviços públicos de qualidade compensam salários mais baixos, e a China, que investe em saúde preventiva para aumentar a expectativa de vida a custos reduzidos.

Para reverter esse cenário, o economista propõe:

  • Investir em inclusão produtiva e benefícios como o Bolsa Família para dinamizar a economia
  • Ampliar investimentos em infraestrutura, como saneamento básico e ferrovias, que têm efeito multiplicador
  • Reduzir transferências para paraísos fiscais e revisar renúncias fiscais que beneficiam grandes grupos

Dreno financeiro consome 30% do PIB

Dowbor detalha um dreno financeiro de aproximadamente 30% do PIB brasileiro, composto por:

  1. Pagamento de juros da Selic a 15%, que retira 10% do PIB
  2. Endividamento das famílias, consumindo mais 10%
  3. Juros altos para pequenas e médias empresas, drenando 4%
  4. Evasão fiscal (6%) e renúncias fiscais (4%)

Ele também critica isenções como a de lucros e dividendos para bilionários e a Lei Kandir, que beneficia exportadores de commodities. "Todo esse dinheiro poderia ser investido em ferrovias, saneamento, saúde e educação", defende.

Educação e parcerias público-privadas como soluções

A falta de mão de obra qualificada reflete baixos investimentos em educação. "No Brasil, 21% têm curso superior, contra 62% no Canadá", observa Dowbor. Esse desequilíbrio estrutural limita o desenvolvimento econômico por décadas.

Como exemplo de parceria produtiva, ele cita a China, que investiu em máquinas para produção de painéis solares, permitindo que empreendedores locais criassem milhares de empresas com juros de 2%. "O estado atuou como motor de arranque, gerando proteção ambiental, empregos e lucros". No Brasil, a influência do capital especulativo na política, facilitada pelo financiamento empresarial de campanhas até 2015, deforma essa relação.

Dowbor conclui enfatizando a necessidade de redirecionar recursos para investimentos produtivos e sociais, rompendo com a lógica do dreno financeiro que perpetua a desigualdade e trava o crescimento nacional.