Êxodo político: sete deputados da federação PSDB-Cidadania migram para o PSD de Kassab em SP
Um café da manhã realizado nesta quinta-feira (5) selou um cenário de migração partidária que já se desenhava há cerca de um ano na política paulista. Gilberto Kassab, presidente do PSD, recebeu sete representantes da federação PSDB-Cidadania na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), confirmando a filiação de seis deputados estaduais do PSDB e um do Cidadania ao seu partido a partir de 4 de março.
Com essa movimentação, a federação PSDB-Cidadania deixa de ocupar a terceira maior bancada na Alesp, após décadas de predomínio tucano no cenário político estadual. A perda de representatividade marca um momento crítico para o PSDB, que enfrenta uma erosão gradual de sua base eleitoral e parlamentar.
Hegemonia histórica e encolhimento recente do PSDB
O PSDB, surgido em 1988 de uma dissidência progressista do MDB durante a Assembleia Constituinte, sempre manteve forte ligação com o estado de São Paulo. Seus fundadores incluíam figuras emblemáticas como Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro, Mário Covas e José Serra, consolidando uma presença marcante na política paulista.
A partir de 1994, o partido elegeu o governador de São Paulo em sete eleições consecutivas, estabelecendo uma hegemonia que só foi interrompida em 2022 com a vitória de Tarcísio de Freitas, dos Republicanos. A derrota de Rodrigo Garcia naquele pleito representou o desfecho de uma crise interna, agravada por disputas entre João Doria e outras lideranças partidárias.
O racha levou o PSDB a abrir mão de uma candidatura própria à Presidência da República em 2022, fato inédito em sua trajetória. Nos anos seguintes, a erosão da legenda se intensificou: na janela partidária de 2024, oito vereadores tucanos da capital paulista deixaram a sigla.
Nas eleições municipais, o partido sofreu revezes significativos, sem conseguir eleger prefeitos em nenhuma capital brasileira e perdendo representação na Câmara Municipal de São Paulo. No estado, o número de prefeituras sob controle tucano encolheu drasticamente, de 173 para apenas 21.
Debandada na Assembleia Legislativa e reações
Com a saída de seis dos oito deputados do PSDB e mais um do Cidadania, a bancada da federação na Alesp será reduzida a apenas quatro parlamentares: dois de cada partido. Esse número equipara-se ao do MDB e PSB, atualmente empatados como a oitava bancada da Casa.
Entre as remanescentes do PSDB, a deputada Carla Morando afirmou que também planeja deixar o partido, embora ainda não tenha definido seu destino político. "Não participei do café", declarou, referindo-se à reunião dos colegas com Kassab.
Do lado do Cidadania, a deputada Ana Carolina Serra afirmou não considerar uma mudança de legenda no momento, mas reconheceu a ansiedade entre os parlamentares. "Desde o ano passado vejo as pessoas ansiosas. A janela partidária só começa em março e até lá temos trabalho pela frente", comentou.
Os deputados Bruna Furlan (PSDB) e Ortiz Júnior (Cidadania), outros remanescentes da federação, não responderam aos questionamentos da reportagem sobre o assunto.
Críticas do PSDB e cenário eleitoral
O presidente estadual do PSDB, Paulo Serra — ex-prefeito de Santo André e marido de Ana Carolina Serra — emitiu uma nota oficial criticando a movimentação. Ele lamentou "profundamente esta forma desrespeitosa de cooptação de quadros" e classificou o episódio como "canibalismo" na base do governador Tarcísio de Freitas.
"Em nada ajuda a construção de um projeto nacional de centro", afirmou Serra, destacando que o PSDB está em processo de transformação e que, enquanto alguns saem, outros ingressam com "sangue novo, representatividade e vontade de reconstruir um projeto de governo que já provou que dá certo".
A nota também ressaltou que o PSD integra a base do PT no Governo Federal, defendendo um modelo de gestão que, segundo o PSDB, "não funciona mais". O partido alertou que essa posição poderá ser explorada nas próximas eleições por aqueles que "escolhem o caminho temporariamente mais fácil".
Com as eleições de 4 de outubro se aproximando, a composição da Assembleia Legislativa de São Paulo promete mudanças significativas para os próximos quatro anos, refletindo as transformações no cenário político partidário estadual.



