O Cenário Eleitoral de 2026: Crise Financeira, Reformas Estruturais e Desafios Urbanos
O ano eleitoral de 2026 promete aquecer significativamente o debate político nacional, com temas complexos que vão além das discussões costumeiras. Enquanto o Legislativo e o Judiciário estão em recesso, o noticiário tem sido dominado pelos desdobramentos do caso do Banco Master, cujos reflexos atingem diversas instituições e figuras públicas.
A Crise do Banco Master e Seus Desdobramentos
Os fragmentos do caso do Banco Master continuam a gerar ondas de impacto no sistema financeiro brasileiro. As investigações revelam transações problemáticas que resultaram em prejuízos bilionários, com a conta atual ultrapassando a marca de R$ 40 bilhões em indenizações. O banco oferecia rendimentos abusivos de 140% do CDI, atraindo investidores com promessas irrealistas.
O ministro-relator do caso no Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, tem tentado cercar de sigilo as investigações do Banco Central e da Polícia Federal. Entretanto, a nota oficial do presidente do STF, ministro Edson Fachin, não afastou completamente as desconfianças sobre o andamento do processo. A situação expõe fragilidades no sistema de garantias do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).
Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú, destacou uma distorção importante no regulamento do FGC. Instituições que venderam agressivamente os produtos do Master, como XP Investimentos, BTG e Nubank, receberam altas comissões antecipadamente. Maluhy defende que essas entidades deveriam contribuir adicionalmente para o fundo garantidor, além de sua participação proporcional normal.
O Contexto Econômico Internacional
Segundo análise do Departamento de Economia do Santander, chefiado pela economista Ana Paula Vescovi, 2026 não representa um retorno ao regime macroeconômico da década anterior. O ano consolida um novo contexto caracterizado por crescimento moderado, custo de capital estruturalmente mais elevado e maior sensibilidade às decisões institucionais.
No cenário internacional, observa-se uma desaceleração das economias avançadas em condições distintas de episódios anteriores. A política monetária perdeu parte relevante de sua capacidade de impactar a atividade econômica, enquanto a política fiscal reaparece de forma desigual. A fragmentação geopolítica tornou-se um pano de fundo permanente para decisões de investimento, comércio e financiamento.
Um dado significativo: em 2025, o dólar norte-americano já não detém a maioria nas transações do sistema SWIFT, com sua participação caindo de 50,2% para 46,7%. A tendência é de maior espaço para o euro, especialmente com a potencial implementação do acordo Mercosul-União Europeia.
O Cenário Político e Partidário
As eleições de 2026 disputarão as 513 vagas da Câmara dos Deputados e 54 assentos no Senado Federal. Este é um tema sensível que mobiliza a oposição a formar uma grande bancada de senadores para garantir quórum necessário para processos de impeachment.
O Santander destaca que a renovação do Congresso ocorrerá em um contexto de elevação gradual da cláusula de desempenho, que estabelece requisitos mínimos para o funcionamento partidário-parlamentar. Este processo será concluído apenas em 2030, pressionando legendas menores a ampliarem suas bancadas para acessar financiamento público.
O processo de consolidação partidária observado nos últimos ciclos indica maior espaço para partidos de centro, que historicamente direcionam recursos orçamentários para bases locais. Esta dinâmica costuma favorecer parlamentares já estabelecidos e ampliar a competitividade dessas siglas em relação a partidos com menor capilaridade.
A Reforma Tributária e Seus Impactos
A partir de 2026, o Brasil inicia a transição para um novo sistema de impostos com Imposto sobre Valor Agregado (IVA) de crédito amplo e tributação no destino. A reforma tem potencial para reorganizar processos, sistemas, cadeias de suprimentos e decisões estratégicas dentro das empresas.
O primeiro impacto será tecnológico, exigindo que sistemas sejam refeitos, controles automatizados e processos ajustados para garantir precisão no novo modelo. A reforma também altera preços relativos, margens e fluxo de caixa, exigindo revisão de precificação e planejamento de capital de giro.
Setores industriais tendem a ganhar eficiência, enquanto serviços podem enfrentar maior pressão tributária. No longo prazo, ganhos de produtividade e reformas podem compensar custos iniciais, mas a percepção de risco e a capacidade de execução serão decisivas para o sucesso das empresas.
O Acordo Mercosul-União Europeia
Se implementado, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia criará o maior mercado consumidor do mundo, abrangendo 720 milhões de pessoas e cerca de 20% do PIB global. Mais do que uma simples abertura tarifária, o acordo tem potencial para ampliar o comércio, estimular investimentos e promover ganhos de eficiência.
A eliminação gradual de tarifas deve facilitar o acesso a insumos, integrar empresas brasileiras às cadeias industriais europeias e reorganizar processos produtivos. Estudos do IPEA indicam que o acordo pode expandir o PIB brasileiro em até 0,46% até 2040, melhorar o saldo comercial e elevar investimentos.
Setores como agricultura, alimentos, papel e celulose, vestuário e transporte devem ser os mais beneficiados. O acordo também incorpora cláusulas ambientais e sociais, alinhando-se à agenda verde europeia e à transição energética.
Desafios Demográficos e Previdência
Um tema frequentemente esquecido no debate público, mas com implicações profundas, é a mudança demográfica brasileira. A razão de dependência (população com menos de 14 anos e 65+ como proporção da população em idade ativa) atingiu seu ponto mínimo em 2017 e vem subindo gradualmente desde então.
Esta mudança tem duas implicações macroeconômicas principais. Primeiro, pesa sobre o crescimento no médio e longo prazo, tornando o PIB mais dependente de ganhos de produtividade. Segundo, intensifica pressões fiscais à medida que o envelhecimento eleva gastos com previdência e saúde.
A reforma da Previdência Social de 2019 foi um passo importante, mas a elevação projetada da razão de dependência sugere que novos ajustes provavelmente continuarão na agenda política nos próximos anos.
São Paulo: 472 Anos de Desafios Urbanos
São Paulo, a maior cidade do país e motor da economia brasileira, comemora seus 472 anos neste domingo enfrentando problemas estruturais significativos. A metrópole paga o preço do seu gigantismo e da expansão desordenada.
Quando chove, a cidade teme alagamentos e quedas de árvores que deixam bairros e municípios da Grande São Paulo sem energia elétrica por vários dias. Esta situação contrasta com iniciativas bem-sucedidas em outras cidades, como o Rio de Janeiro, onde na década de 90 o prefeito César Maia enterrou os fios elétricos e de comunicação, reduzindo significativamente os problemas com interrupções de energia.
O crescimento desordenado de São Paulo remonta a decisões históricas. Em 1975, preocupado com a forte expansão da capital e do ABCD, o presidente Ernesto Geisel tentou descentralizar a industrialização do país, proibindo incentivos a novas fábricas na capital e seu entorno. Esta medida levou a Fiat a inaugurar sua fábrica em Betim (MG) em 1976, e o Paraná a receber uma unidade da Volvo.
Problemas de logística fizeram, posteriormente, a própria indústria automobilística migrar do ABC para o interior paulista, e hoje diversos estados brasileiros abrigam montadoras. A avidez de São Paulo acabou por concentrar o centro financeiro e o segmento de serviços na região metropolitana, exacerbando os problemas de infraestrutura.
Se os paulistas tivessem acatado mais os planos do governo Geisel e menos o ímpeto expansionista de figuras como Paulo Maluf, o crescimento da área construída da Grande São Paulo teria ocorrido em ritmo menor e o progresso seria mais equilibrado por todo o país. Os paulistanos não precisariam fazer torcida pelas chuvas para garantir abastecimento de água, nem sofreriam com as consequências das tempestades que causam prejuízos significativos a cada ventania mais forte.
Estes temas complexos - crise financeira, reformas estruturais, acordos internacionais, desafios demográficos e problemas urbanos - formam o pano de fundo essencial para o debate eleitoral de 2026, exigindo dos candidatos e da sociedade propostas concretas para os desafios nacionais.